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Tag: África

5 de janeiro de 2021

Ivermectina, de droga lucrativa a esperança contra a COVID-19


ivermectina

ivermectina




 

A ivermectina ganhou destaque no mundo inteiro com a pandemia do coronavírus. Há quem defenda o uso como tratamento precoce no combate ao vírus e sua distribuição (ou não) chegou a pautar as campanhas eleitorais de 2020 no Brasil. Segundo a Gazeta do Povo, jornal do Paraná, prefeitos que distribuíram Ivermectina como forma de prevenção à Covid-19 foram reeleitos.

Quem é do agro conhece a ivermectina desde muito tempo. O antiparasitário usado no gado, equinos, suínos e em algumas raças de cães foi descoberto por japoneses (retirada de uma bactéria que vive no solo nos anos 70 e foi considerado uma droga revolucionária nos anos 80, sendo o Ivomec injetável o medicamento veterinário mais lucrativo do mundo na época.

Enquanto lucrava muito no mundo veterinário, a Merck (detentora da patente até 1996) também reconheceu o uso para humanos e fez doações significativas do medicamento para países da África combaterem a Oncocerose (Cegueira do Rio), em parceria com ONGs e a Organização Mundial da Saúde. Toda essa filantropia foi financiada com os lucros do Ivomec. A WHO chegou a publicar um boletim em 2004 chamando o tratamento em massa com ivermectina “uma estratégia de saúde pública pouco utilizada”. Um estudo realizado no Brasil é citado no documento.

O uso em humanos do Mectizan (nome comercial nos EUA) para o combate da cegueira do rio foi anunciado em 1987, sete anos depois de testes clínicos realizados no Senegal. Em 2001, o programa de doações da Merck estava ativo em 33 países da África subsaariana, América Latina, Yemen e Oriente Médio, tratando 25 milhões de pessoas anualmente e com meio bilhão de comprimidos administrados.

A ivermectina é apontada como uma das medicações mais importantes do mundo, ao lado da penicilina e da aspirina, de inegável sucesso para salvar ou melhorar a vida de milhões de pessoas atacadas por diversos tipos de parasitas. Se entrará para história como importante combatente na pandemia do COVID-19, só o tempo poderá dizer. Seria ótimo.

Curiosidade: a descoberta e a longa jornada de uma amostra de solo japonês

A história de como a ivermectina foi descoberta é incrível. No final dos anos 1960, Satoshi Ōmura, um microbiologista do Instituto Kitasako de Tóquio, estava procurando novos compostos antibacterianos e começou a coletar milhares de amostras de solo de todo o Japão. Ele cultivou bactérias das amostras, examinou as culturas quanto ao potencial medicinal e as enviou a 10.000 km de distância para o Merck Research Labs em Nova Jersey, onde seu colega, William Campbell, testou seu efeito contra vermes parasitas que afetam rebanhos e outros animais. Uma cultura, derivada de uma amostra de solo coletada perto de um campo de golfe a sudoeste de Tóquio, foi notavelmente eficaz contra vermes. A bactéria da cultura era uma espécie nova e foi batizada de Streptomyces avermictilis. O componente ativo, denominado avermectina, foi modificado quimicamente para aumentar sua atividade e segurança. O novo composto, chamado ivermectina, foi comercializado como um produto para a saúde animal em 1981 e logo se tornou um medicamento veterinário mais vendido no mundo. Surpreendentemente, apesar de décadas de pesquisas, S. avermictilis continua sendo a única fonte de avermectina já encontrada.

Extraído de Ivermectin: From Soil to Worms, and Beyond, do Barcelona Institute for Global Health.

Para saber mais

Ivermectin, ‘Wonder drug’ from Japan: the human use perspective.

Ivermectina (Wikipedia)

Discovery of Ivermectin.

 


3 de janeiro de 2021

Ataque de gafanhotos na Etiópia é o pior em 25 anos


ataques de gafanhotos

Ataques de gafanhotos estão arrasando plantações e vegetação em geral na região conhecida como o “Chifre da África” e as autoridades já consideram o pior ataque da praga dos últimos 25 anos.

 

gafanhotos

Gafanhotos no Quênia. Foto: FAO.

Em 21 dezembro de 2020, gafanhotos no estágio imaturo começaram a aparecer no Quênia e em sete dias já estavam em diversos países da região. O governo da Etiópia entrou o ano de 2021 montando uma operação com aviões e helicópteros para tentar combater a invasão dos insetos, pulverizando pesticidas nas áreas afetadas. Técnicos também foram enviados para orientar as comunidades no interior do país.

Ataque de gafanhotos no Chifre da África e o rastro das nuvens. Via FAO.

Desde janeiro de 2020, os gafanhotos já danificaram 200 mil hectares de lavouras na Etiópia, afetando a segurança alimentar do país, em uma área que já tem sérios problemas geopolíticos.

Como um gafanhoto adulto é capaz de comer até duas gramas de alimento por dia, uma nuvem produz efeitos danosos para a vegetação, já que em cada quilômetro quadrado podem estar entre 40 e 80 milhões de insetos. E as nuvens podem atacar até 150km quadrados em um dia, destruindo lavouras que seriam suficientes para alimentar milhares de pessoas.

A espécie que ataca a África é o gafanhoto do deserto (Schistocerca gregaria), que pode medir até 8 cm.

E não é só a agricultura que sofre com os gafanhotos. O setor aéreo também está em alerta, já que as nuvens podem entrar nos motores dos aviões e até mesmo derrubar uma aeronave. Alguns voos já foram desviados e realizaram pousos de emergência por conta da infestação.

A Etiópia é o maior produtor de trigo da África Subsaariana, mas está cada vez mais dependente da importação, com gastos de meio bilhão de dólares para atender suas necessidades. A área cultivável do país é de 37 milhões de hectares, ou 32% do território.


24 de agosto de 2020

Olhos pintados no traseiro das vacas espantam predadores


olhos pintados

Pelo menos é o que diz um estudo realizado na África, com pesquisadores da Austrália e centenas de vaquinhas cobaias

Para quem sofre com predadores nos rebanhos bovinos, aí está uma possível solução: pintar olhos nos traseiros das vacas para afugentar os inimigos.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Austrália na África, mais precisamente na região nordeste de Botswana, mostrou que os animais que receberam a pintura de olhos no traseiro levaram vantagem em relação a outros com apenas um “X” ou nada.

Veja também: Bovinos com GPS e localização em tempo real, 24 horas.

Foram quatro anos de estudos com rebanhos. O resultado dos testes é curioso: das 835 vacas sem qualquer pintura, 15 sofreram ataques de predadores e morreram. Das 543 pintadas com a letra “X” no traseiro, 4 morreram. Já as 683 vacas com olhos pintados com tinta acrílica na retaguarda, todas sobreviveram sem ataques.

Bonito não fica, mas parece que funciona.

O estudo sobre os olhos pintados em bovinos pode ser acessado neste link. E foi visto primeiro no Modern Farmer.


11 de julho de 2020

Os bielorrussos estão de olho no Zimbábue


bielorrussos

Milhões de dólares em máquinas agrícolas da Bielorrúsia estão indo para o país africano, que também oferece terras para os seus fornecedores

O Zimbábue, país que já foi uma potência agrícola no continente africano e passou por momentos complicados na política (especialmente na agrária) recentemente, está fazendo parcerias milionárias com a Bielorrússia, ex-república soviética que é sede da Belarus – Minsk Tractor Works e da Gomselmash.

Segundo o site Modern Diplomacy, o recente acordo para fornecimento de máquinas agrícolas e treinamento para o Zimbábue foi favorecido pela situação atual da economia do país, em declínio por conta de secas, ciclones e a pandemia do coronavírus. Os bielorrussos oferecem um financiamento de “pai pra filho”, com juros melhores que os chineses.

Trator Belarus

O arranjo do Afreximbank e do Banco de Desenvolvimento da Bielorrússia prevê um financiamento de US$ 150 milhões para negócios entre os dois países, com previsão (antes da pandemia) de chegar no valor de US$ 3 bilhões ainda em 2020.

bielorrussos
Palesse GS575 – colheitadeira fabricada na Bielorrússia.

Já foram enviados para o Zimbábue 20 colheitadeiras, 100 tratores e 50 plantadeiras que chegaram no continente através de Moçambique e da África do Sul. Serão instalados centros de treinamento e manutenção na capital Harare.

Bielorrussos no Zimbábue: nem todo mundo gosta

O produtor Ben Freeth, um fazendeiro branco nascido na Inglaterra (veja Mugabe and the White African) e que mudou para Zimbábue ainda criança, conhece bem a política da região. Ele não vê estes acordos com bons olhos pela falta de prática dos bielorrussos com a realidade agrícola africana, além de não ver futuro em acordos comerciais em um país ainda carente de tranquilidade jurídica, especialmente na questão do direito de propriedade.

Terra africana

Alexander Lukashenko, presidente da Bielorrússia (aquele da tratorterapia contra o coronavírus) e Emmerson Mnangagwa, do Zimbábue, em encontro ocorrido em 2019.

Em 2019, os bielorrussos assumiram o controle de 10.000 hectares de terra para produção agrícola no Zimbábue, mandaram especialistas para o país para análises de solo, determinar as necessidades e fazer estudos de irrigação. Nos planos, produção de leite e laticínios e lavouras de soja, milho, trigo e arroz.

Saiba mais

Veteran Zimbabwe farmer pours cold water on $58 million mission from Belarus with love.

With the West in Turmoil, Africa Looks for New Partners.

Zimbabwe – The World Bank.


31 de dezembro de 2019

O lamento de um produtor espanhol ao destruir um pomar


produtor espanhol

Produtor espanhol gravou vídeo para justificar a derrubada de seu pomar de caqui na região de Valência, sem condições para continuar na atividade

A página espanhola “Pimientero” publicou, recentemente, um triste vídeo onde um produtor de caqui explica os problemas para quem está na atividade na Espanha enquanto ao fundo alguém corta rente os pés de caqui no pomar.

O que ele descreve, é uma tempestade perfeita: custo de produção muito acima do preço de mercado (18 centavos de euro contra 10), concorrência com produtos africanos e a falta de defensivos aprovados que combatam as pragas na produção.

https://www.facebook.com/1632395910381813/videos/593854634759433/

Hoje, são capazes de ir a marte, gastar milhões, mas são incapazes de combater um simples bichinho insignificante que aqui chamamos de cotonet. Não podem terminar com ele pois com os produtos disponíveis aqui na Europa é impossível combater.

O cotonet mencionado no vídeo é o Pseudococcus viburni, uma espécie de cochonilha, uma praga que também ataca a produção de vinho na Nova Zelândia e na Califórnia.

Quando publicamos na página sobre os rumos da produção agrícola na Europa, logo nossos seguidores comentam que “falta pouco para o agricultor não conseguir mais trabalhar com tanta proibição”. Parece que agora não falta mais, os exemplos estão aí.

O pomar derrubado.

O vídeo encerra com uma defesa das cooperativas, uma reclamação sobre os políticos que não ouvem os agricultores do país e o reforço sobre os agroquímicos ineficientes disponíveis no país.

Até o momento desta publicação, o vídeo conta com 1200 reações, 4,6 mil compartilhamentos e 178 mil visualizações.

Leia também

Espanha quer acabar com os subsídios para os “Agricultores de Sofá”.


6 de março de 2019

Moringa stenopetala: o chá é sucesso nos EUA e fonte de renda para agricultores da Etiópia


Moringa

O chá ficou famoso nos Estados Unidos e sua importação para o país está contribuindo para a economia da Etiópia

A Moringa é uma árvore abundante na África e na Ásia, base do sustento de comunidades inteiras que beneficiam folhas, óleo e outros derivados da planta e também tradicionalmente a consomem como parte de suas culturas. Conhecida também como “árvore da vida”, a planta tem incríveis propriedades nutricionais e medicinais.

Recentemente, o mundo ocidental da boa forma descobriu a Moringa e o consumo fez aquecer o mercado, gerando parcerias de empresas americanas com cooperativas de pequenos agricultores e empresas da Etiópia. A Green Path Food é uma elas, reconhecida por fechar um acordo com a importadora americana Rakkasan Tea Company.

A folha da African Moringa
A árvore da Moringa stenopetala na Etiópia. Fonte: Wikipedia.

Entre as muitas propriedades da Moringa (Moringa stenopetala) estão a riqueza de nutrientes (ela ganhou o apelido de super alimento), a ausência de cafeína, altos níveis de potássio, vitaminas, cálcio e ferro. Uma latinha que rende 20 doses do chá é vendida por cerca de US$ 20,00 nos EUA.


7 de maio de 2018

A Europa está com medo da lagarta do cartucho


lagarta

Nossa velha conhecida já devastou culturas na África e pode atingir a Europa e o resto do mundo, em breve.

O jornal britânico The Telegraph deu grande destaque para a lagarta do cartucho em uma reportagem que alerta para os riscos de uma infestação no continente europeu, na próxima estação.

A praga já devastou lavouras inteiras na África, causando bilhões de dólares em prejuízos apenas em dois anos, tempo aproximado da presença da lagarta no continente. Especula-se até mesmo que a Spodoptera frugiperda chegou lá por via aérea, junto com a bagagem ou carga em um avião de passageiros.

Se chegar realmente na Europa, a lagarta virá pela Península do Sinai ou atravessando o Mar Mediterrâneo, segundo alguns modelos de previsão. Itália e Espanha seriam as primeiras vítimas, por conta do clima.

O Brasil, craque no manejo da lagarta do cartucho, poderá ensinar alguns truques para os colegas do velho continente, muito em breve.


3 de julho de 2017

Ditador africano do Zimbábue está expulsando brancos de suas terras e torturando negros no processo


Ditador africano

Proprietários de terras e funcionários das fazendas são expulsos de suas casas em uma violenta reforma agrária.

O Zimbábue é um país localizado no sul da África e é comandado desde 1980 pelo ditador Robert Gabriel Mugabe. São quase 40 anos de um governo que transformou o país em um dos mais miseráveis do mundo. Seu plano de reforma agrária tira terras de agricultores e entrega para membros do próprio partido, sem qualquer conhecimento agrícola. Resultado: fome e produção mínima.
A última “eleição” ocorreu em 2013, com vitória esmagadora do ditador Mugabe. Na anterior, em 2008, seu concorrente Morgan Tsvangirai desistiu após ter apoiadores assassinados. O Brasil foi um parceirão do regime ditatorial do Zimbábue, com empréstimos de quase 100 milhões de dólares através do BNDES.

Um exemplo recente, a propriedade de Robert Smart

No mês de junho, a fazenda do “colono branco” Robert Smart foi expropriada pelo governo. O próprio Mugabe aqueceu a militância com um discurso incentivando a invasão de propriedades pela “juventude que ainda não tem terra”, dias antes da ação de desapropriação.

Zimbábue
As forças do governo entraram na propriedade, produtora de milho e tabaco, expulsando moradores e funcionários. 150 pessoas – nativas da região – tiveram a maioria dos seus bens pilhados e distribuídos entre os soldados, obrigadas a fugir para as matas da região e deixando para trás até mesmo medicamentos de uso contínuo. Entre as vítimas, infectados com o vírus HIV que ficarão sem tratamento.

Para saber mais

Brasil libera crédito a ditador do Zimbábue – Folha de São Paulo, 2013.

“Homens armados ocuparam minha fazenda” (em inglês) – News 24, 2017.

7 ditaduras financiadas pelo governo brasileiro nos últimos anos – Spotniks, 2016.

Governo brasileiro libera quase US$100 milhões para Mugabe. Gazeta do Povo, 2013.


21 de junho de 2017

Haraka, a famosa plantadeira manual que é um sucesso na África


Haraka

Desenvolvida por entidade assistencial, a plantadeirinha é usada em pequenas propriedades em diversos países.

A Haraka foi desenvolvida pela Growing Nations, entidade assistencial da África do Sul que leva tecnologias para diversos países do continente, além de extensão rural e programas de bolsas e pesquisas para estudantes.

O desenho de uma plantadeira manual rotativa não é novo, mas foi aperfeiçoado durante meses de pesquisa e começou a ser disponibilizado aos assistidos pela GN em 2013. Além de ser um sucesso na lida “manual”, alguns agricultores já instalaram o equipamento até em pequenos tratores.


9 de maio de 2016

Watly, a máquina que fornece água potável e internet para populações rurais na África


Watly

O equipamento usa energia solar e dura quinze anos

 

Lançada na plataforma Indiegogo, a Watly é capaz de oferecer internet em um raio de 800 metros de onde está instalada, bem como filtrar com grafeno, ferver e destilar água potável, para produzir até 5000 litros por dia. Projetada para durar 15 anos, promete reduzir o gasto de 5000 barris de petróleo durante toda a sua vida útil.

 

 

A empresa já tem um protótipo em funcionamento em Gana, é apoiada por grandes empresas (ainda em segredo) e já ganhou um aporte de 1,4 milhões de euros do fundo European Union’s Horizon 2020. Em 8 anos, os responsáveis pretendem instalar 10000 máquinas no continente africano e gerar 50000 empregos.

Onde estão os “startupeiros” do nordeste brasileiro? Aí está uma ótima ideia.


4 de abril de 2011

Conheça o sistema Push Pull (Empurra Puxa) para plantio agroecológico do milho, em uso na África


Push Pull

Cientistas afirmam que a revolução verde africana só pode ocorrer através das técnicas “biológicas, como mostra um projeto no Quênia apoiado pela fundação suíça Biovision.

O dia está nascendo no lago Vitória. Algumas pirogas coloridas retornam ao pequeno porto de Kisumu, no sudoeste do Quênia. A pesca, mais uma vez, teve resultados bem magros.

“Dez anos atrás pescávamos até 200 quilos de peixe por noite. Mas hoje em dia já é bastante se capturamos 20 quilos”, lamenta Kennedy Omondi, pescador da região, ao lado das caixas, onde algumas poucas tilápias e outros peixes-gatos se debatem dando seus últimos suspiros.

O fato é que em abril, a estação das chuvas, o lago costuma ser menos abundante em peixes. Mas fatores pouco naturais tornam essa diminuição da fauna mais inquietante: a poluição da cidade tão próxima, o excesso das atividades pesqueiras pela pequena comunidade local, a concorrência com as aves devido ao desequilíbrio do ecossistema e… a rivalidade com outro predador, mais inesperado: a perca do Nilo.

Uma ameaça

Esse peixe, introduzido artificialmente no lago nos anos de 1960 e destinado quase que exclusivamente à exportação, pode atingir dimensões impressionantes e pesar até 250 quilos. Como ele se alimenta de peixes menores, muitas espécies desapareceram completamente, um fator que ameaça a sobrevivência da população e a biodiversidade do segundo maior lago do mundo.

“A perca do Nilo é comprada e exportada por uma companhia indiana”, explica Kennedy. “Os indianos nos exploram e subremuneram os pescadores empregados por eles. Então nos organizamos em uma cooperativa para lhes vender, a um preço melhor, as percas com mais de um quilo. As menores e outras espécies de peixes são destinadas ao consumo local. Mas a pesca não é mais capaz de nos alimentar e somos obrigados a procurar outras fontes de renda.”

Entre elas, a agricultura ocupa uma posição crescente, apesar de ainda ser marginal. Embora a agricultura convencional ainda seja responsável pela parte do “leão”, a orgânica está em plena expansão “e cada vez mais camponeses adotam a técnica ‘push-pull”, anima-se Francis O Nyange, um agrônomo do Centro Internacional de Pesquisa em Fisiologia e Ecologia de Insetos (ICIPE, na sigla em francês) em Mbita, alguns quilômetros distante.

A avó de Obama

Embora o documentário O pesadelo de Darwin tenha alertado o mundo sobre os riscos trazidos pela perca do Nilo ao lago Vitória, o potencial revolucionário da técnica “push-pull” permanece em grande parte desconhecida fora do Quênia e da África ocidental.

Portanto, para os cientistas africanos que a desenvolveram e a fundação suíça Biovision, que apóia o projeto, essa técnica agrícola de “repelir e atrair” pode resolver os problemas alimentares de todo o continente. “Esse método é praticado até mesmo pela avó de Barack Obama, que vive em Kogelo, um vilarejo não muito distante daqui”, assegura O Nyange.

Seu inventor se chama Zeyaur Khan, um cientista indiano que se ocupa há 17 anos desse verdadeiro quebra-cabeça: como a África poderá se alimentar até 2050? Ao passar de um a dois bilhões de habitantes, o continente precisará triplicar sua produção agrícola. Porém, o aquecimento global reduz as superfícies cultiváveis e os produtos químicos – adubos, fertilizantes e pesticidas – esgotam os solos já pouco férteis.

Isso sem contar o fato de que os camponeses, dos quais 99% no Quênia possuem minúsculas parcelas de terra, de no máximo dois hectares, não têm recursos suficientes para comprar esses produtos químicos. Também os governos não lhes podem dar subvenções.

Triplicar a produção

“Mas encontrei a solução para triplicar a produção agrícola sem pesticidas ou organismos geneticamente modificados”, assegura o professor, durante uma visita ao ICIPE, organizada pela rede Media 21. Sua resposta: “push-pull”.

O método é tão simples que até parece infantil. Na época era necessário pensar nela e, sobretudo, encontrar as duas plantas “milagrosas” capazes de combater os parasitas e as ervas daninhas. Pois os insetos furadores de caule e a striga – mais conhecida como erva das bruxas – são os dois principais problemas do milho e do trigo na África, causando uma perda de receitas da ordem de 1,2 bilhão de dólares por ano só para o milho. No Quênia, ele constitui a base da alimentação e serve para preparar o ugali, uma espécie de pasta branca que acompanha todos os pratos.

Agnès Mbuvi pratica a técnica do “push-pull” desde 2002. Essa viúva de 45 anos possui um pequeno campo no qual ela afirma produzir 540 quilos de milho – contra 45 antes do “push-pull” – e isso duas vezes por ano. Desde então, sua vida mudou: ela chega mesmo a vender o excedente e pode inscrever dois dos seus três filhos na universidade.

A Técnica

Efeito combinado – é através do carrapicho-beiço-de-boi (Desmodium), uma planta originária da América do Sul, e o capim dos elefantes (uma espécie de gramínea), que os parasitas e as ervas daninhas são neutralizadas. Isso graças a um efeito combinado de atração-repulsão, chamado precisamente de “push-pull”.

Alternar – para isso é necessário alternar uma fileira de milho com uma de desmodium e cercar os campos com erva de elefante. O desmodium controla a erva das bruxas e repele (“push”) os insetos perfuradores para fora do campo de plantação, onde eles são atraídos (“pull”) pelo perfume das folhas pegajosas do capim de elefante. Eles morrem instantaneamente.

 

Produção – segundo o professor Khan, para que os camponeses não abandonem suas terras, é necessário que a agricultura gere para eles pelo menos 2 dólares ao dia. O sistema do “push-pull”, adotado por 20 mil camponeses no oeste do Quênia, lhes permite ganhar entre 3,2 a 4 dólares. E a aplicação dessa técnica pode aumentar a produção do milho, sorgo e milho-miúdo – os três principais gêneros alimentícios do continente – de 1 a 3,5 toneladas por hectare.

Biovision – A fundação suíça Biovision foi criada pelo agrônomo suíço Hans Rudolf Herren, detentor do prêmio mundial da alimentação em 1995 e copresidente do IAASTD, um relatório redigido por 400 cientistas em 2008 e que defende uma nova revolução verde, baseada na agricultura orgânica e de baixa escala.

Isolda Agazzi, swissinfo.ch
(Adaptação: Alexander Thoele)

 

 



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