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Grand Coulee, a Belo Monte dos americanos

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A construção de uma usina hidrelétrica modifica o meio ambiente e altera a vida de um grande número de pessoas. Se índios estão envolvidos a coisa toda é ainda pior pois conflitos seculares voltam à mesa já na apresentação do projeto. A reparação material é a única alternativa para os prejudicados, para danos nem sempre tangíveis.

Esta introdução poderia ser o começo de mais um post sobre a polêmica da contrução da usina Belo Monte, em Altamira, no estado do Pará. Não é. Vou contar a história de um problema bem americano: a construção da usina de Grand Coulee, no estado de Washington. Vamos chamar aqui esta usina de “a prima rica de Belo monte”. As coincidências nos dois casos são bem curiosas.

O Columbia é o maior rio do noroeste dos EUA, nasce nas montanhas do Canadá e deságua no oceano pacífico. O curso total é de 2000 km. A concepção da usina, seus desafios técnicos e questões ambientais começaram nos anos 20. Sua função mais nobre seria a irrigação, seguida por produção de energia elétrica e suporte à navegação. 13 anos depois as obras começaram, sendo o projeto mais inclinado à produção de energia elétrica, com sua capacidade original ampliada. Uma grande obra como esta teve grande apelo “político” pois a geração de empregos em uma américa pós grande depressão caia como uma luva. Ná época o governo chegou a contratar artistas que compuseram músicas sobre a usina, para convencimento da população, na base da apelação (…trazendo luz para a escuridão).

 

Well the world has seven wonders, the travelers always tell:
Some gardens and some towers, I guess you know them well.
But the greatest wonder is in Uncle Sam’s fair land.
It’s that King Columbia River and the big Grand Coulee Dam.

She heads up the Canadian Rockies where the rippling waters glide,
Comes a-rumbling down the canyon to meet that salty tide
Of the wide Pacific Ocean where the sun sets in the west,
And the big Grand Coulee country in the land I love the best.

Loonie Donegan – Grand Coulee

 

A construção foi finalizada em 1942, logo após a entrada dos EUA na segunda guerra mundial. Então a meta inicial de fomentar a irrigação deu lugar ao apoio total às usinas de alumínio (grandes consumidoras de eletricidade) para a fabricação de aviões. O processamento de plutônio também foi viabilizado na região por conta do fornecimento garantido de energia.

Os danos ambientais

Entre todos os danos óbvios, talvez o mais sentido na região seja o da diminuição ou extinção de alguns tipos de peixes típicos, incluindo o salmão. A inviabilização da piracema acabou com muitas espécies, o que nos liga ao item seguinte…

Os índios

A região do rio Colúmbia teve muitas reservas indígenas reduzidas e ou deslocadas por conta da construção da usina. Muitos dos rituais milenares destas tribos eram ligados aos peixes e seus santuários de desova, totalmente eliminados. 85 km2 foram inundados, destruindo locais de caça e cemitérios (alguns foram relocados). No lado branco da coisa não foi diferente. Uma cidade inteira (Kettle Falls) foi transferida.

 

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Índios Spokane: não enfiaram o facão no pescoço de ninguém e hoje estão com a grana.

O grupo que representava as demandas dos índios (uma espécie de conselho tribal) não teve muita sorte logo nas primeiras audiências. A primeira reunião com o governo federal na época foi cancelada por um fato totalmente inédito. No mesmo dia o Japão bombardeava Pearl Harbor. E foi assim até os anos 90 quando esta comissão conseguiu na justiça uma indenização de 52 milhões de dólares e pagamentos anuais de 15
milhões. Quase 70 anos de briga.

Hoje em dia a Grand Coulee ainda é a maior dos EUA e quinta do mundo. Também é a maior estrutura de concreto daquele país. Tem uma capacidade instalada de 6809 MW. Em fornecimento anual só perde para a usina de Palo Verde, sendo esta nuclear. A região do rio Colúmbia já foi responsável por 40% da produção de alumínio dos EUA (17% do mundo) mas a oferta decrescente por conta das secas e a transformação da energia elétrica em commodity diminuiu esta produção em 80%. Mesmo assim a energia ainda é considerada barata, e grandes data-centers (inclusive o do google) estão migrando para a região.

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