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Carne de cavalo, podre ou contaminada. Relembre o escândalo europeu de 2013

A crise frigorífica abalou o mercado europeu e foi descoberta com testes de DNA, em verificações de rotina na Irlanda. O episódio pode servir de lição para o Brasil da operação Carne Fraca.

 

Comer carne de cavalo é um costume em alguns países da Europa e é uma “iguaria” com preço superior ao da carne de gado. Mas, em 2013, toneladas de carne de cavalo e suíno foram descobertas misturadas a carne de gado (vendidas como tal). A investigação revelou um esquema que virou do avesso o setor frigorífico, supermercados, fabricantes de refeições prontas, merenda escolar, refeições para hotéis e sistema de mercado entre os países do continente.

 

Tudo começou quando uma agência de fiscalização irlandesa encontrou, através de testes de DNA, carne de cavalo em hambúrgueres fabricados no país e no Reino Unido, vendidos em grandes redes de supermercados. Com a descoberta, uma operação de devassa no mercado de carne foi iniciada.

Entre a primeira revelação dos testes com carne contaminada (15 de janeiro) e as primeiras prisões de responsáveis suspeitos de vender carne sabidamente de cavalo, foram menos de 30 dias, com diversos recalls de produtos no meio deste período.

No final, os atingidos pela carne adulterada foram Irlanda, Reino Unido, França, Noruega, Áustria, Suíça, Suécia e Alemanha. Uma lista completa das marcas e produtos afetados, pode ser vista aqui.

A causa da contaminação revelou-se complexa: Da Romênia, carne de cavalo era vendida sem a devida identificação para negociantes da Holanda, que então vendiam para empresas do Chipre, que repassavam o produto para empresas da França. As primeiras condenações ocorreram em 2015, dois anos depois da descoberta da contaminação, com penas brandas e multas irrisórias para um dos abatedouros envolvidos.

Como “bônus”, toda esta movimentação acabou flagrando algumas irregularidades paralelas, como a reciclagem de carnes vencidas, na Polônia.

Muito embora a carne de cavalo em si não seja imprópria para o consumo humano, as barreiras culturais e religiosas, além da óbvia identificação enganosa dos produtos, causaram sérias implicações. Alguns fornecedores ainda são suspeitos de abater cavalos que tinha a origem em criadouros para competição, animais inoculados com drogas proibidas na cadeia alimentar.

 

Carne Fraca

A operação Carne Fraca, da Polícia Federal, pegou o país de surpresa na semana passada e o mercado financeiro (e consumidor) vive momentos de descrédito com as empresas envolvidas. A internet, para variar, brinca com a própria desgraça e dezenas de memes foram criados com variações do tema “carne de papel ou papelão” e a “vingança” com todas as celebridades que endossaram algumas das marcas envolvidas.

O governo sinaliza esforços para o controle de danos da situação. Ao mesmo tempo, as informações sobre o que de fato aconteceu são liberadas de forma lenta, deixando um país em compasso de espera, nossa balança comercial em risco, empregos e produtores rurais de todos os portes com o destino incerto.

A falta de agências isentas (com as européias) e a tradicional morosidade do estado brasileiro colaboram para a notável diferença de tempo na resolução dos problemas. Enquanto aqui é revelado parte do resultado de uma operação de durou dois anos, lá, entre a descoberta da primeira irregularidade e a prisão, passado pelo recall e mais testes de milhares de produtos, foram 30 dias.

As autoridades precisam apresentar para o país, nesta semana, uma lista completa dos produtos atingidos, testes de laboratório e documentos que comprovem a situação do mercado de carne brasileiro, para os próprios cidadãos e para o exterior. O momento é de sofrer descrédito, ataques de oportunistas internos e externos, mas mitigar estes problemas o mais rápido possível. Não seria má ideia uma chamada aos laboratórios independentes, privados ou de universidades, para que realizem todos os testes possíveis, de acordo com os seus equipamentos, pagos também pela iniciativa privada, da parte dos envolvidos.

O ministro Blairo Maggi deveria começar o tour pela Europa na Irlanda, apertando a mão dos chefes das agências que descobriram o escândalo da contaminação de 2013, como sinal de interesse, conhecimento das grandes crises mundiais do mercado e boa vontade.

O Brasil espera, apreensivo.

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