Connect with us
Advertisement AdvertisementAdvertisement

Agricultura

Combustível de aviação vira comprador de milho e soja e muda a conta do produtor

Produção global de SAF chega a 2,4 milhões de toneladas em 2026. Veja por que a rota do etanol favorece o milho e o que muda para quem produz grão.

Ilustração minimalista de avião estilizado com gota de combustível e folhas verdes

A aviação começou a comprar lavoura. Não em volume que mude o preço amanhã, mas em trajetória que já aparece no planejamento de indústria e de cooperativa. A produção global de combustível sustentável de aviação deve alcançar cerca de 2,4 milhões de toneladas em 2026, o equivalente a 0,8% de todo o querosene de aviação consumido no ano.

É pouco em participação e muito em velocidade: a produção saltou de 1 milhão de toneladas em 2024 para 1,9 milhão em 2025. O crescimento desacelera em 2026, mas a base instalada já não é experimental.

Duas rotas, dois impactos completamente diferentes no campo

Mais de 90% do SAF produzido em 2026 vem de duas rotas: HEFA, que usa óleos e gorduras, e etanol-para-jato, conhecida como ETJ. A escolha entre elas define quem ganha na porteira.

O contraste de eficiência de uso da terra é brutal. Produzir três bilhões de galões de SAF apenas com óleo de soja exigiria em torno de 40 milhões de acres plantados. A mesma quantidade, pela rota do etanol de milho, precisaria de cerca de nove milhões de acres em 2030.

Traduzindo para quem planta: a rota do etanol é muito mais eficiente em área, o que a torna mais provável de escalar. Isso favorece estruturalmente o milho e, por tabela, todo o complexo que gira em torno dele — inclusive os coprodutos, já que cada litro de etanol produzido gera DDG para nutrição animal.

A política mexeu no tabuleiro

O programa americano SAF Grand Challenge, lançado em 2021, mira 3 bilhões de galões em 2030 e 35 bilhões em 2050, com redução mínima de 50% nas emissões de ciclo de vida. A meta continua no papel, mas o entusiasmo político mudou: a atual administração não abraçou o programa com a mesma ênfase, e o Congresso cortou o crédito tributário 45Z para produção de SAF de US$ 1,75 para US$ 1 por galão.

Corte de subsídio desacelera investimento em planta nova. É por isso que a projeção de crescimento para 2026 é mais modesta do que a de 2025. Quem estava montando modelo de negócio contando com o incentivo cheio precisou refazer a conta.

O Brasil entrou com regra própria

Enquanto o debate americano oscila, o Brasil legislou. A Lei do Combustível do Futuro criou o programa nacional de querosene de aviação sustentável, com meta progressiva de redução de emissões nos voos domésticos a partir de 2027.

Isso importa por um motivo simples: o país tem a cadeia de etanol mais competitiva do mundo e vem expandindo agressivamente a produção a partir do milho no Centro-Oeste. Empresas como Raízen, FS e Inpasa já operam ou anunciaram projetos ligados à cadeia de combustíveis renováveis, e a rota ETJ tem no etanol de milho brasileiro um dos insumos mais baratos disponíveis globalmente.

No plano internacional, a LanzaJet foi quem colocou a tecnologia etanol-para-jato em escala comercial, e a Neste segue como maior produtora pela rota HEFA.

O que muda para quem produz grão

Um piso adicional de demanda. Etanol para aviação compete pelo mesmo milho que vai para ração e exportação. Demanda industrial local reduz dependência de porto e melhora a base regional, sobretudo em praças distantes do litoral.

Valorização de prática de baixo carbono. A elegibilidade do SAF depende de redução comprovada de emissões no ciclo de vida. Isso significa que a intensidade de carbono do grão entregue passa a ter valor comercial. Plantio direto, uso eficiente de nitrogênio, energia renovável na secagem e rastreabilidade de origem deixam de ser discurso e viram variável de preço.

Novo tipo de contrato. Fornecer para usina que produz combustível certificado costuma exigir documentação de manejo. Quem já organizou dado por causa de exigência ambiental de exportação sai na frente.

Risco de concentração. Uma usina nova muda a lógica de uma região inteira. É bom enquanto opera bem e ruim se a política muda e o projeto trava. Depender de um único comprador industrial tem o mesmo risco de depender de um único porto.

O coproduto é metade do negócio

Quem olha uma usina de etanol de milho apenas como consumidora de grão perde metade da equação. Cada tonelada processada devolve DDG, farelo úmido e óleo de milho — insumos que abastecem confinamento, avicultura e suinocultura da própria região.

Isso cria um efeito de encadeamento local relevante. Em praças do Centro-Oeste que historicamente exportavam milho e importavam proteína, a chegada da indústria inverteu parte do fluxo: o grão passou a ser processado perto de onde é produzido, e o coproduto reduziu o custo de dieta da pecuária vizinha.

Para o produtor de grão, o ganho aparece de duas formas. Primeiro na base, porque desaparece parte do frete até o porto. Segundo na estabilidade, já que uma usina compra ao longo do ano inteiro, e não apenas na janela de colheita, quando todo mundo tenta vender ao mesmo tempo.

O que ainda pode dar errado

Três riscos merecem ser acompanhados com honestidade. O primeiro é regulatório: incentivo cortado, como aconteceu com o crédito americano, trava investimento e adia planta anunciada. O segundo é técnico: a rota etanol-para-jato ainda tem poucas unidades em escala comercial plena, e curva de aprendizado industrial costuma ser mais longa do que o cronograma prometido.

O terceiro é reputacional. Parte da comunidade científica questiona o balanço real de emissões de rotas baseadas em cultura agrícola, sobretudo quando se contabiliza mudança indireta de uso da terra. Esse debate não é ruído — ele define qual matéria-prima será elegível nas próximas revisões de regra, e portanto define quem vende.

Como separar tendência de moda

Combustível de aviação sustentável não vai consumir a safra brasileira de milho. Em 2026 ele representa menos de 1% do querosene de aviação global. O que ele faz é criar uma segunda perna de demanda industrial para um grão que já tinha etanol carburante, ração e exportação puxando.

Para o produtor, a atitude sensata é acompanhar sem reorganizar a fazenda em torno disso. Não vale trocar de cultura apostando em SAF. Vale, sim, começar a registrar prática de manejo com rigor, porque a próxima geração de contratos vai perguntar pela intensidade de carbono do que você entrega — e quem não tiver o dado vai vender pelo preço de commodity comum enquanto o vizinho vende com prêmio.

Saiba mais sobre mercado, energia e agricultura em www.farmfor.com.br.

festa e feira do mel festa e feira do mel

Apicultura é homenageada na Festa e Feira do Mel no Amazonas

Feiras

boi mais chifrudo boi mais chifrudo

Conheçam o boi mais chifrudo do mundo

Pecuária

gisele bundchen gisele bundchen

Gisele Bundchen tinha sete lareiras em casa e militava contra o uso de fogão a lenha

Meio Ambiente

cormorant cormorant

Ag Cormorant, o drone pulverizador com capacidade para 500kg de carga

Drones