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Agricultura

Fertilizantes em 2026: alta de dois dígitos, risco em Hormuz e como travar o custo da próxima safra

Índice global de fertilizantes deve subir mais de 30% em 2026. Veja o que puxa ureia, fosfatados e potássio e como segurar o custo por hectare.

Ilustração minimalista de um saco de fertilizante com grânulos caindo e uma seta de alta

O Banco Mundial projeta que o índice global de fertilizantes suba mais de 30% em 2026. Não é um número uniforme — dentro dele há nutrientes acelerando e nutrientes andando de lado —, mas é o suficiente para reabrir uma discussão que muita fazenda tinha arquivado desde 2023: quanto vale antecipar compra?

O ponto de partida é entender que cada nutriente está sendo puxado por uma força diferente. Tratar “fertilizante” como um bloco único é o caminho mais rápido para comprar caro o item errado.

Nitrogênio: gás natural e geopolítica no mesmo boleto

A ureia é o nutriente mais exposto a energia. Amônia se produz com gás natural, e o custo do gás define o piso do mercado. As projeções para a safra 2026 nos Estados Unidos giram em torno de US$ 620 por tonelada, com faixa entre US$ 610 e US$ 635, contra US$ 530 em 2025.

Há, porém, uma contracorrente relevante: o aumento das exportações chinesas tende a aliviar a oferta global. Isso já se refletiu em cotações de primavera mais baixas no cinturão do milho, entre US$ 480 e US$ 500 por tonelada. Na prática, o nitrogênio virou o nutriente de maior volatilidade — e, portanto, aquele em que a janela de compra pesa mais no resultado.

A tensão em torno do Estreito de Ormuz é o principal risco de cauda. Boa parte da amônia e do gás que abastecem o mercado passa por ali. Qualquer interrupção logística de algumas semanas se traduz em salto de preço muito antes de faltar produto no porto brasileiro.

Fosfatados: oferta travada por decisão de governo

DAP e MAP seguem caros por um motivo estrutural: restrições de exportação de países produtores-chave. As cotações se mantêm entre US$ 615 e US$ 640 por tonelada, e a projeção é de alta de cerca de 6% em 2026 sobre os níveis de 2024.

Fósforo é o nutriente com menor margem de manobra agronômica no curto prazo. Não dá para simplesmente cortar sem consequência, especialmente em solos tropicais com alta capacidade de fixação. É aqui que análise de solo e aplicação a taxa variável deixam de ser refinamento e viram economia direta.

Potássio: o único que dá alívio — por enquanto

O cloreto de potássio está no nível mais baixo em mais de dois anos, entre US$ 375 e US$ 390 por tonelada, com nova capacidade produtiva entrando em operação e reduzindo o aperto de oferta. A projeção, ainda assim, é de alta de cerca de 12% ao longo de 2026.

Traduzindo: se existe um nutriente para antecipar compra neste momento, é o potássio. A janela de preço confortável raramente dura uma safra inteira, e o Brasil importa a maior parte do que consome.

Cinco decisões que realmente mexem no custo por hectare

1. Comprar por nutriente, não por formulação. Fórmulas prontas escondem quanto se está pagando por cada elemento. Cotar N, P e K separadamente e comparar com o preço da formulação equivalente costuma revelar diferenças que passam despercebidas na negociação.

2. Fracionar a compra. Concentrar 100% da necessidade em uma única data é apostar em uma leitura de mercado. Dividir em três ou quatro compras ao longo do ano entrega o preço médio — que, em ano volátil, quase sempre bate a aposta única.

3. Levar a análise de solo a sério. Amostragem em grade e mapa de fertilidade custam pouco perto do valor do insumo aplicado. Fazendas que migraram para taxa variável com equipamentos de Stara, Jacto ou John Deere relatam reduções expressivas de aplicação em zonas já saturadas, sem perda de produtividade.

4. Usar produtos de eficiência. Inibidores de urease e de nitrificação, fertilizantes de liberação controlada e revestimentos reduzem perda por volatilização. Companhias como Yara, Mosaic, Nutrien e ICL ampliaram essas linhas justamente porque o cliente passou a cobrar eficiência por unidade de nutriente, e não preço por tonelada.

5. Tratar barter como instrumento financeiro. A troca de insumo por produto é uma trava de relação de preço, não apenas uma forma de pagamento. Quando a relação de troca está favorável, o barter protege margem melhor do que qualquer negociação de desconto à vista.

O componente biológico entrou na conta

A discussão sobre bioinsumos deixou de ser periférica exatamente porque o custo mineral subiu. Inoculantes de alta performance, bactérias solubilizadoras de fósforo e produtos microbianos não substituem adubação em lavoura de alta produtividade, mas reduzem a dose necessária em situações específicas e melhoram o aproveitamento do que é aplicado.

Vale a regra do ceticismo produtivo: exigir dado de eficiência agronômica local, com repetição e testemunha, antes de trocar quilo de mineral por litro de biológico. O que funciona no cerrado de Goiás pode não funcionar no arenoso do oeste paulista.

O que acompanhar nos próximos meses

Três indicadores dizem mais do que qualquer manchete: o preço do gás natural na Europa e nos Estados Unidos, que antecipa o movimento da ureia; a política de exportação de fosfatados dos grandes produtores; e a relação de troca insumo-grão publicada mensalmente, que mostra se a alta do fertilizante está sendo compensada pelo preço da commodity.

Quando essa relação de troca piora dois trimestres seguidos, a resposta clássica do produtor é cortar adubação. É compreensível e quase sempre caro: a queda de produtividade aparece na safra seguinte, e recuperar fertilidade de solo custa mais do que mantê-la.

Um ano de fertilizante caro se atravessa com planejamento de compra, precisão de aplicação e disciplina de análise. Não se atravessa com corte linear de dose.

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