Quando três fabricantes que competem entre si dizem a mesma coisa, geralmente é porque a coisa é verdade. A leitura consolidada do setor para 2026 é de que o mercado de máquinas agrícolas está no fundo do ciclo — e que a recuperação, se vier, aparece em 2027.
A John Deere foi explícita: 2026 deve marcar o piso do ciclo de equipamentos agrícolas, ainda que a empresa projete quedas anuais de venda em regiões relevantes. Depois de um resultado trimestral acima do esperado, a companhia elevou a base da projeção de lucro líquido do ano fiscal para a faixa entre US$ 4,75 bilhões e US$ 5 bilhões — número respeitável, mas que vem depois de uma retração de 29% no lucro do exercício anterior.
O tamanho da retração
Os dados dos concorrentes confirmam o diagnóstico. A CNH projeta que as vendas do segmento agrícola fiquem entre estáveis e 5% abaixo do ano anterior, enquanto persegue eficiência de custo e administra mudanças rápidas de política comercial. A AGCO viu o faturamento líquido cair 13% em 2025, uma redução superior a US$ 10 bilhões.
No varejo, o quadro é o mesmo: as vendas de tratores na América do Norte, somando todos os fabricantes, recuaram 8% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o ano anterior.
A variável que ninguém tinha na planilha: tarifas
O custo tarifário virou item material no resultado das montadoras. A Deere projeta cerca de US$ 1,2 bilhão em despesas com tarifas no ano fiscal de 2026, a um ritmo aproximado de US$ 300 milhões por trimestre. A AGCO estima até US$ 110 milhões em 2026, contra US$ 40 milhões em 2025.
Esse custo não evapora. Ele é absorvido em margem, repassado a preço ou compensado com corte de produção — e, na prática, os três caminhos estão sendo usados ao mesmo tempo.
Por que subprodução é uma boa notícia para o comprador
Fabricantes com base forte de clientes nos Estados Unidos vêm deliberadamente produzindo abaixo da demanda para queimar estoque de concessionária. Isso é doloroso para o fabricante e favorável para quem compra, por dois motivos.
Primeiro, estoque alto em pátio de concessionária é o que gera desconto agressivo. Segundo, quando a subprodução funciona e o estoque normaliza, o poder de negociação volta para o vendedor. Ou seja, a janela de barganha existe, mas tem prazo.
Como negociar em ano de fundo de ciclo
Separe preço de máquina de custo de capital. Em mercado fraco, o desconto grande costuma vir embutido na taxa de financiamento subsidiada, não no preço de tabela. Comparar propostas exige olhar o custo total ao longo do contrato, não o valor da parcela.
Negocie o usado com a mesma seriedade do novo. Em ciclo de baixa, o valor de retomada do seu equipamento atual cai junto com o mercado. A diferença entre uma avaliação boa e uma ruim do trade-in frequentemente supera o desconto obtido na máquina nova.
Considere retrofit antes de trocar. Muita fazenda troca o trator inteiro querendo, na verdade, a tecnologia embarcada. Kits de piloto automático e controle de seção de Trimble ou Topcon se instalam em frota mista e entregam boa parte do ganho por uma fração do investimento.
Coloque disponibilidade de peça no contrato. Em período de produção reduzida, cadeia de suprimento fica mais frágil. Prazo de atendimento e garantia de disponibilidade de componente crítico valem mais do que um ponto percentual de desconto.
Avalie marcas fora do óbvio. Kubota na faixa de baixa e média potência, e fabricantes nacionais como Stara e Jacto em implementos e pulverização, ganharam espaço justamente em ciclos de aperto, quando o produtor passa a comparar custo por hectare em vez de fidelidade de marca.
O que observa quem quer acertar o timing
Três indicadores antecipam a virada melhor do que qualquer manchete: o nível de estoque de máquinas novas nas concessionárias, o preço do usado em leilão — que sempre reage antes do novo — e a relação entre preço de grão e custo de máquina.
Historicamente, a recuperação do mercado de equipamentos acompanha, com defasagem de dois a três trimestres, a recuperação da renda agrícola. Se o preço de milho e soja sustentar patamar melhor no primeiro semestre de 2027, a demanda por máquina responde na sequência — e a janela de desconto se fecha.
O usado é o termômetro mais honesto
Quem quer entender de verdade onde está o ciclo deveria acompanhar leilão de máquina usada em vez de release de fabricante. O mercado secundário reage antes e mente menos: ele mostra quanto o produtor realmente está disposto a pagar quando não há taxa subsidiada nem bônus de fábrica para embelezar a proposta.
Em ciclo de baixa, o padrão se repete. Colhedoras e tratores de alta potência com poucas horas seguram valor razoavelmente bem, porque continuam sendo a alternativa direta ao equipamento novo caro. Já máquinas de faixa intermediária e implementos genéricos desvalorizam rápido, pois competem com estoque encalhado de concessionária a preço promocional.
Para quem vai vender uma máquina, a implicação prática é direta: em mercado fraco, o momento de negociar é antes da janela de safra, quando ainda existe comprador buscando reposição, e não depois, quando todo mundo descobriu que sobrou equipamento no pátio.
Trocar ou esticar?
A pergunta correta não é se o mercado está barato. É se a sua frota está custando caro. Máquina com hora alta consome mais em manutenção corretiva, para em janela crítica e derruba rendimento operacional. Quando o custo de indisponibilidade em plantio ou colheita supera a diferença de parcela, esticar o uso deixa de ser economia e vira risco.
Ciclo de baixa é bom para quem tem caixa e necessidade real de renovação. Para quem está apertado, a melhor decisão continua sendo manutenção preventiva bem-feita e uso mais inteligente do que já está no pátio.
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