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Agricultura

El Niño forte a caminho: o que muda no campo entre o fim de 2026 e o início de 2027

NOAA vê 63% de chance de El Niño muito forte no pico de nov/2026 a jan/2027. Veja o impacto esperado por região e como ajustar plantio, manejo e hedge.

Ilustração minimalista de um sol sobre ondas do oceano representando o aquecimento do Pacífico no El Niño

O aviso saiu em 11 de junho, quando o NOAA emitiu formalmente o El Niño Advisory. De lá para cá, a conversa deixou de ser sobre “se” e passou a ser sobre “quanto”. O Climate Prediction Center trabalha com cerca de 63% de probabilidade de um evento muito forte na janela de pico, entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 — exatamente o período em que a América do Sul define produtividade e a Austrália colhe.

Para quem planta, isso não é meteorologia de jornal. É calendário de plantio, escolha de cultivar, dimensionamento de secador e decisão de trava de preço.

De uma La Niña errática para um El Niño de peso

A safra 2025/26 foi conduzida sob uma La Niña de comportamento irregular, que entregou calor e falta de chuva em momentos ruins e deixou muita gente com produtividade abaixo do orçado. A transição para a fase quente do Pacífico está sendo lenta e gradual: os efeitos começam a aparecer na primavera de 2026 e ganham corpo no verão e no outono seguintes.

Essa lentidão engana. Como o evento amadurece justamente entre novembro e janeiro, o risco não está distribuído ao longo do ano — ele se concentra em poucas semanas críticas de florescimento e enchimento de grãos.

O mapa de quem ganha e de quem perde

El Niño não é bom nem ruim em bloco. Ele redistribui chuva.

  • Pampas argentinos e Sul do Brasil: historicamente mais chuva na primavera e no verão. É o cenário mais favorável para soja e milho semeados entre outubro e dezembro, com risco maior de excesso hídrico e de janela apertada para operações mecanizadas.
  • Cinturão do milho dos Estados Unidos: a transição tende a ser cautelosamente positiva, com alívio de seca no sul do país e melhor estabelecimento do trigo de inverno.
  • Austrália: é o ponto mais exposto. Trigo e cevada semeados em maio e junho enfrentariam primavera mais seca do que o normal justamente na janela reprodutiva de outubro e novembro.
  • Sudeste asiático e África Austral: tendência de déficit hídrico, com pressão sobre arroz, palma e milho branco.
  • Norte e Nordeste do Brasil: risco de veranicos mais frequentes, o que pesa sobre o Matopiba e sobre a janela da safrinha.

O mercado já está lendo isso

O prêmio de risco climático começou a aparecer no preço antes mesmo do pico do fenômeno. O milho renovou máximas de contrato no fim de agosto, com compra técnica e posicionamento de fundos, depois que o Pro Farmer projetou produção norte-americana bem abaixo das estimativas oficiais. Na Europa, o serviço MARS cortou a expectativa de produtividade em 5%, para 6,61 t/ha, cerca de 7% abaixo da média de cinco anos.

Do lado das oleaginosas o comportamento foi outro: a soja recuou mesmo com estimativa razoável do Pro Farmer, e o complexo de óleos vegetais sofreu com a queda do petróleo. Ou seja, o mercado está separando o que é risco de oferta imediato do que é risco climático futuro. Quem confundir os dois na hora de travar preço vai errar.

O que dá para fazer antes que o Pacífico decida

Não existe manejo que anule ENSO, mas existe manejo que reduz a variância do resultado.

Escalone o plantio. Concentrar toda a área em uma única janela é apostar em uma só previsão. Distribuir a semeadura em duas ou três janelas, com cultivares de ciclos diferentes, dilui o risco de um evento extremo cair em cima do florescimento de tudo ao mesmo tempo.

Revise drenagem e tráfego. Em ano de El Niño no Sul, o problema raramente é falta de água — é não conseguir entrar na área. Terraço, sistematização e pneus de baixa pressão deixam de ser detalhe e viram gargalo operacional.

Reforce secagem e armazenagem. Colheita com grão úmido em janela curta derruba mais margem do que dois sacos de produtividade. Dimensionar secador e capacidade estática com antecedência é decisão de agosto, não de fevereiro.

Use os dados que você já paga. Plataformas como o Climate FieldView e o John Deere Operations Center já cruzam histórico de chuva por talhão com produtividade. Esse cruzamento responde melhor do que qualquer boletim genérico à pergunta que importa: quais talhões da minha fazenda quebram primeiro quando falta água?

Trate hedge e seguro como o mesmo problema. Em ano de risco climático elevado, vender antecipado sem cobertura de produção é trocar risco de preço por risco de entrega. A combinação de venda escalonada com seguro ou opções cobre os dois lados.

Fontes que vale acompanhar semana a semana

O boletim do Climate Prediction Center é atualizado mensalmente e traz a probabilidade revisada por trimestre. No Brasil, os levantamentos da Conab e os alertas agrometeorológicos da Embrapa ajudam a traduzir o fenômeno global em impacto regional. Para quem exporta, o relatório Grains: World Markets and Trade, do USDA/FAS, mostra como o resto do mundo está reagindo ao mesmo clima.

O erro mais caro é tratar como notícia

Existe um padrão que se repete a cada ciclo ENSO: o produtor lê a manchete em agosto, concorda com o diagnóstico, não muda nada no plano de safra e se surpreende em janeiro. O valor de um alerta climático com quatro meses de antecedência não está em prever a chuva do dia 15 — está em permitir que compra de insumo, escala de máquina, contrato de frete e estratégia de venda sejam desenhados para um cenário de dispersão maior.

Um El Niño muito forte, se confirmado, será o principal fator de formação de preço de grãos no primeiro trimestre de 2027. Quem entrar nessa janela com plantio concentrado, caixa apertado e posição vendida sem cobertura vai depender de sorte. E sorte não é estratégia de safra.

Saiba mais sobre clima, mercado e tecnologia no campo em www.farmfor.com.br.

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