Tag: Right to Repair

22 de fevereiro de 2021

Site diz que John Deere mentiu durante anos para os agricultores


john deere mentiu

john deere repair motherboard

A John Deere mentiu para os clientes sobre a facilitação do acesso aos tratores para manutenção. A constatação é fruto de uma investigação do site Motherboard que supostamente revelou as promessas da gigante das máquinas agrícolas em 2018 (leiam A briga entre agricultores e a John Deere virou documentário), no auge dos conflitos do movimento Right to Repair.

A John Deere teria prometido, através de representantes dela e de outras marcas, que deixaria mais acessível o uso de ferramentas de software para reparo e diagnóstico, começando em janeiro de 2021. Tudo está documentado aqui (em inglês) em uma espécie de carta de princípios.

Resumidamente (em uma tradução simples), a carta diz:

Na medida em que ainda não estiverem disponíveis, as informações de manutenção, diagnóstico e reparo listadas abaixo serão disponibilizadas aos usuários finais por meio de revendedores agrícolas autorizados em termos justos e razoáveis, começando com tratores e colheitadeiras colocadas em serviço em ou após 1º de janeiro de 2021.

Os usuários finais também poderão comprar ou alugar ferramentas de diagnóstico por meio de revendedores agrícolas autorizados. Certas informações e ferramentas poderão estar disponíveis mais cedo. Os revendedores agrícolas estão empenhados em fornecer acesso a:

• Manuais (Operador, Peças, Serviço);
• Guias de produtos;
• Demonstrações de serviço do produto, Treinamento, Seminários ou Clínicas;
• Informações de gerenciamento de frota;
• Diagnóstico On-Board via porta de diagnóstico ou wireless interface;
• Serviço de Diagnóstico Eletrônico de Ferramentas de Campo e treinamento sobre como usa-las;
• Outras publicações com informações sobre serviço, peças, operação e segurança.

Usando essas informações e essas ferramentas, que estarão disponíveis para compra, aluguel ou assinatura de revendedores, os agricultores serão capazes de identificar e reparar vários problemas que possam encontrar em seus equipamentos. FWEDA e CFBF suportam a capacidade dos usuários de equipamentos de manter, diagnosticar e reparar suas máquinas. No entanto, a capacidade de diagnosticar e reparar não significa o direito de modificar. Por segurança, durabilidade, motivos ambientais e de responsabilidade, informações e ferramentas de diagnóstico e reparo não permitirão que os consumidores façam o seguinte:

• Reinicialize um sistema imobilizador ou eletrônicos relacionados à segurança módulos;
• Reprogramar qualquer eletrônico unidades de processamento ou controle do motor unidades;
• Mudar qualquer equipamento ou configurações do motor afetando negativamente emissões ou conformidade de segurança;
• Baixe ou acesse a fonte código de qualquer proprietário incorporado software ou código.

Em função do conflito entre agricultores e a John Deere na época – muitos recorriam a softwares piratas para quebrar o código do trator e realizar manutenção – alguns estados americanos chegaram a planejar a criação de leis que obrigassem a John Deere a abandonar a ideia de bloquear eletronicamente a manutenção dos tratores, mas o comprometimento da empresa e a promessa da carta acalmaram os ânimos.

john deere mentiuJohn Deere mentiu?

Três anos depois, as coisas continuaram da mesma maneira. Para comprovar, o site Motherboard se fez passar por cliente e ligou para diversas revendas John Deere nos EUA, tentando comprar as ferramentas de software para liberação dos tratores., todas negaram a venda de imediato, deram uma enrolada ou disseram que só as autorizadas poderiam ter acesso a estes sistemas. O mesmo procedimento foi realizado também por um defensor do movimento Right To Repair, Kevin O’Reilly, mas com 11 revendas. Um relatório sobre esta pesquisa está disponível em inglês neste link.

Este novo capítulo da briga entre a John Deere o seus usuários deverá agitar o mercado. Talvez as partes fiquem no meio do caminho entre a liberdade para dar manutenção no próprio trator sem precisar ligar para a revenda, ficar dias inteiros parado e gastar milhares de dólares e a proteção da propriedade intelectual da empresa que investiu tempo e recursos no desenvolvimento dos produtos.

 

Veja também

Why American Farmers Are Hacking Their Tractors With Ukrainian Firmware

John Deere Lied For Years About Making Its Tractors Easier To Service

 


22 de abril de 2020

Direito de consertar: australianos na briga entre agricultores e fabricantes


direito de consertar

O movimento right to repair (direito de consertar) ganhou o auxílio de uma entidade australiana de proteção do consumidor, na briga pelo acesso ao software dos tratores

A briga entre agricultores e grandes fabricantes de tratores pelo direito de consertar o próprio maquinário já foi tema de texto no Blog do Farmfor aqui e aqui (leiam clicando nos links). Agora, a celeuma ganhou mais um capítulo.

A Australian competition and consumer watchdog, ou ACCC, uma espécie de Procon misturado com Cade lá da Austrália (exagerando) quer saber mais sobre o relacionamento entre os agricultores que compram tratores e os fabricantes, se estes possuem acesso a ferramentas de software (programas de computador) e peças para reparar os próprios tratores.

Na realidade os agricultores – alguns vivendo em áreas bem isoladas do país – ficam dias sem acesso aos próprios tratores no caso de defeito, esperando a assistência técnica do fabricante aparecer no local e consertar o equipamento. Se fizerem algo por conta, correm o risco de perder a garantia.

A ACCC começou ouvindo os fabricantes. Segundo reportagem da ABC australiana, cinco representantes de grandes marcas agrícolas já foram ouvidos, agora é a vez dos agricultores.

A investigação da ACCC não tem caráter judicial, é apenas uma pesquisa com os dois lados do conflito.

Direito de Consertar – leia também

Em fevereiro, a ACCC publicou um documento sobre o pós-venda de máquinas agrícolas na Austrália. Leia (em inglês) neste link.

Nossa opinião

Se por um lado tratores já não são mais as máquinas humildes do passado, quando os próprios agricultores muitas vezes dominavam 100% da manutenção, hoje são máquinas complexas que envolvem também partes eletrônicas e computadores, mas também fazem o serviço com mais qualidade (ou deveriam).

As empresas de máquinas agrícolas investiram muito dinheiro ao longo dos anos em desenvolvimento, é aceitável que protejam certas partes, desde que isso fique bem claro no momento da compra, sem dúvidas entre as partes. É desejável também que os fabricantes de todos os portes tenham liberdade para criar, vender e dar manutenção em sistemas mais abertos (pode surgir aí uma nova oportunidade).

Por fim, se ainda não chegou ao agro, é questão de tempo: tecnologias abertas um dia farão parte da rotina dos agricultores, da lida com as máquinas até a forma como usam GPS. As grandes marcas vão em um primeiro momento sentir o impacto desta concorrência. Depois, aderir. Aguardem.

Foto da capa: John Deere under Australian skies: Bahnfrend (CC BY-SA 4.0)

Informações extras

RIGHT TO REPAIR: TRACTOR MANUFACTURERS MIGHT HAVE MET THEIR MATCH IN AUSTRALIA.

JOHN DEERE AND NEBRASKA’S RIGHT TO REPAIR, THE AFTERMATH OF A FAILED PIECE OF LEGISLATION.

As farmers fight for the right to repair their tractors, an antitrust movement gains steam.



Publicidade