Tag: Preços

23 de abril de 2018

Supermercado começa a produzir o próprio leite e laticínios cancelam contratos com produtores nos EUA


Decisão prejudica centenas de pequenos produtores em diversos estados americanos.

 

Os produtores de leite receberam uma novidade bem ruim por estes dias: a famosa rede de supermercados Walmart vai produzir o próprio leite, montando uma mega estrutura capaz de colocar um volume nas prateleiras equivalente a 3% de todo o leite consumido nos Estados Unidos.

Mais de 100 produtores em 8 estados diferentes já receberam uma notificação sobre o cancelamento de contrato só no laticínio Dean Foods, um dos fornecedores do Walmart.

 

O momento já é ruim para os produtores americanos, com consumo caindo permanentemente e produção em alta. Estes movimentos corporativos ainda bagunçam com o preço no mercado e muitos pecuaristas centenários dos EUA já pensam em um futuro de falência total, saída do negócio ou trabalho como empregado daqueles que foram um dia os maiores clientes.

Saiba mais:

Dados estatísticos sobre consumo de leite nos EUA.

Walmart’s milk production hits farmers hard (NY Post, em inglês).

Milk processor cancels farm contracts as Walmart makes own milk (Public Opinion, em inglês).

Walmart Moves Into The Dairy Business Even As Milk Consumption Drops (Forbes, em inglês).

 


31 de janeiro de 2018

Governo da França quer que os agricultores controlem os preços nos supermercados


Governo da França

Projeto do Ministério da Agricultura quer modificar totalmente a relação entre produtores e supermercadistas

 

Os supermercados na França são proibidos de jogar comida no lixo. Uma legislação já definiu que os gerentes que desobedecerem a regra estarão sujeitos a multa e até cadeia. As redes precisam doar os alimentos ou enviar para compostagem, fabricação de ração animal ou bioenergia.

Mais um passo para o controle governamental no segmento está para acontecer: um conjunto de medidas proposto pelo ministro da agricultura Stéphane Travert determina que produtores rurais terão controle nos preços praticados nos supermercados. Vejam alguns itens do “pacotaço” francês:

Promoções “compre um, leve dois” estão proibidas. Vendas do tipo “compre dois, leve três” estão liberadas.
Desconto máximo de 25% no preço de venda das mercadorias.
Obrigação da venda de produtos pelo menos 10% acima do preço de compra. Outras leis na França já proíbem a venda a preço de custo ou abaixo deste.
Criação de um sistema de preços mínimos baseados no custo de produção + margem de lucro para os agricultores. Na prática, os agricultores passam a determinar os preços.
Uso de pelo menos 20% de produtos orgânicos nos restaurantes.

Os supermercados franceses estão nas manchetes dos jornais deste o final de janeiro de 2018, quando centenas de pessoas entraram em guerra para comprar potes de Nutella com descontos de até 70% em algumas redes.

Saiba mais sobre Nutella Wars e o controle de preços francês.


13 de maio de 2017

Se o campo não planta, a cidade não janta


se o campo não planta

A frase é conhecida em protestos e imagens motivacionais pela internet. Mas é chegada a hora de observar com atenção onde no mundo a “janta” já está em sério perigo

 

O site inglês Devon Online postou recentemente um relato sobre a situação da agricultura no Reino Unido. No texto, o destaque para a cobertura de uma palestra ministrada por um jornalista da BBC, responsável por assuntos referentes a vida selvagem. Como brincadeira – que logo virou uma constatação séria – o homem declarou que uma das espécies em extinção no Reino Unido era a dos agricultores.

O centro da questão está no financeiro das propriedades rurais, que faturam para viver um pouco além da subsistência, sem sobra de caixa para investimentos em maquinário (só para começar). No setor do leite, os agricultores de lá aumentaram a dívida com os bancos em 1 bilhão de libras nos últimos 2 anos.

Apenas 50% dos alimentos consumidos no Reino Unido são de produção local (dois anos atrás, algumas fontes indicavam até 60%) contra 80% em meados dos anos 80. Novos hábitos de consumo, com alimentos típicos de outros locais, aumento da população e sazonalidade colaboram com este quadro.

O palestrante ainda denunciou as práticas de grandes redes de supermercados que baixam os preços para “manter os consumidores felizes” e lembrou dos perigos sempre assombrando a agricultura, como grandes epidemias e questões climáticas. Na Espanha, recentemente, um clima nada favorável fez as hortaliças sumirem do mercado, com hotéis em desespero pagando até R$20,00 por um simples pé de alface.

O papel do governo

Nós já falamos aqui no blog sobre os agricultores ingleses que receberam dinheiro do governo para não plantar. Estas alterações no mercado podem ser benéficas em termos ambientais, como no exemplo citado, mas alguém sempre paga a conta. Empregos são perdidos e a vocação para a atividade rural simplesmente some em alguns locais. Pessoas que prestam serviços para propriedades precisam trocar de ramo ou desistir desta atividade.

Por outro lado, o comércio de alimentos é uma questão de segurança nacional e governos, via de regra, vão adotar qualquer medida para manter o fluxo de alimentos garantido para a população, sem importar a origem e prejuízo local. Vão importar trigo ainda que matem de fome o triticultor do próprio país. Adicione todo o emaranhado de políticas de subsídios na União Européia no problema, antes do brexit.

Os agricultores são parte de um todo

Dentro da economia do Reino Unido, a produção agrícola representa 26 bilhões de libras, contra 103 bilhões do mercado de alimentos como um todo. Aquele pacote de bolachas Oreo pode conter trigo, soja, derivados do leite, mas outros jogadores entraram nesta equação para que o consumidor coloque na boca o produto. Com um poder de barganha do tamanho do mundo, se algo acontecer ao agricultor local, o pacote poderá chegar importado, todo fabricado em outro país. Por uma ironia do destino, um local onde agricultores talvez nem sofram as mesas exigências ambientais.

Espelho para o agricultor brasileiro

É preciso estar atento ao que acontece no mundo quando o assunto é agricultura, para repensarmos o modo de produção e comercialização de produtos agrícolas no Brasil. Muito além do preço das commodities, o “ser agricultor” é o valor a ser monitorado e o que acontece hoje nos países desenvolvidos pode ser o nosso amanhã, mas sem o colchão cultural e as instituições centenárias destes países. União, cooperativismo e pacificação com o intermediário devem entrar na pauta. É preciso colocar mais produtos na cesta, como valor geográfico, compromisso de entrega e segurança, cobrando por isso.

A solução não está no governo. A saída começa no seu vizinho de cerca.


23 de janeiro de 2017

Agricultores europeus espalham toneladas de leite em pó na rua


Agricultores europeus

Protesto contra o preço baixo do leite deixou branca a sede da Comissão Européia em Bruxelas

 

Os produtores de leite europeus estão furiosos com a política de preços da UE. Nesta segunda, mandaram um recado para o continente, espalhando toneladas de leite em pó nas ruas em Bruxelas, na Bélgica.

 

 

Produtores da Bélgica, Alemanha e França se uniram para exigir da UE mais medidas para o controle de produção, especialmente depois da liberação de cotas de produção em 2015. A relação entre pequenos e grandes produtores no mercado é uma bagunça e, para ajudar, a UE colocou no mercado, recentemente, 22 mil toneladas de leite em pó, diretamente do estoque regulador.

 

 

 

O protesto foi organizado, em parte, pela Via Campesina.


22 de janeiro de 2016

Evolução dos Custos na Propriedade e a História de Leonardo David Müller, do Rio Grande do Sul.


custos

O Leonardo postou no Facebook alguns números sobre custos na propriedade e teve milhares de compartilhamentos. Vamos detalhar esta história aqui no Blog do Farmfor.

 

Com um post simples no Facebook, Leonardo atraiu a atenção de muita gente na rede social ao mostrar alguns números de sua propriedade ao longo dos anos. Evidenciou a dificuldade para manter a lavoura produtiva e ainda ironizou com bom humor no final escrevendo “Mas tudo bem, não tem inflação… Agricultor ganha dinheiro… E tá tudo bem no país…”.

Convidamos o agricultor para mandar mais informações para o Blog do Farmfor e o mesmo atendeu prontamente. Conheça um pouco da história do Leonardo e sua família, agricultores na cidade de Coqueiros do Sul, no Rio Grande do Sul. Nos próximos parágrafos, o depoimento do Leonardo em primeira pessoa.

Com a palavra, Leonardo!

Meu nome é Leonardo David Müller e sou a quarta geração a administrar uma propriedade rural em Coqueiros do Sul. O início se deu por volta de 1938, quando meu bisavô adquiriu as terras e lá montou uma serraria. Meus avós se casaram e lá foram morar, sendo as propriedades ao redor também da família, onde moravam os irmãos de minha avó. Cada um tinha um papel na serraria, meu avô era o administrador e também encarregado de puxar as toras do mato nos dias de chuva. Com a vinda da II Guerra Mundial, além do desaquecimento das vendas, a serraria, por ser propriedade de alemães, foi obrigada a fechar.

Então, as matas que haviam sido derrubadas deram lugar a pequenas lavouras, já que os empregados não tinham trabalho, foi cedido para cada qual um pedaço de terra para poder plantar e ter o que comer. Após a guerra a serraria reabriu, mas as lavouras continuaram. No final dos anos 60, meu avô com problemas de coluna e após o fechamento da serraria, mudou-se para Carazinho e para continuar a lavoura estabeleceu o regime de parceria agrícola, onde meu o mesmo entrava com as terras e outra pessoa com o serviço. Despesas e resultados eram divididos então em 50% para cada um.

No final dos anos 80, a saúde de meu avô foi piorando e minha mãe foi se inteirando dos assuntos e auxiliando na administração. Em 1991, com a morte de meu avô, minha mãe assumiu o papel, eu, um piazinho na época apenas observava. Em 1994 faleceu meu pai, que embora não se envolvesse na lavoura, tinha seu papel de “conselheiro”. Em 1996 o regime de parceria foi desfeito e acabou num acordo onde acabamos ficando sem nenhuma máquina para continuar o trabalho. Para que a lavoura não parasse, optou-se na época por arrendar a terra a terceiros. Terminei o ensino médio e iniciei a faculdade em Porto Alegre, aguentei a cidade 2 anos e meio e em 2000 acabei retornando para Carazinho para trabalhar (coisa que lá não conseguia devido aos horários de estudo) e continuar a faculdade por aqui.

Final de 2001, decidimos por retomar as atividades de lavoura, na época foi vendida uma casa que possuíamos e o dinheiro empregado para dar início na lavoura, o que me permitiu a compra antecipada de insumos e consequente redução no custo inicial (situação única até o momento). Porém, sem máquinas, a alternativa foi partir para o aluguel com os vizinhos, pagando hora de trator e percentual na colheita. Em 2004 comecei a comprar máquinas novamente, todas usadas, algumas novas que estou até hoje pagando.

De 2002, onde foi realizado o primeiro plantio até hoje, tive muitos anos ruins na agricultura, que na verdade me ajudaram. Ajudaram a não dar um passo maior que a perna, a não esperar sempre colheita cheia, enfim, a lidar com os altos e baixos da lavoura e que, por fim, moldaram a forma que tenho de administrar tudo, ponderada, sem excessos e sempre com um pé atrás e um olho pra frente.

Trago algumas tabelas, com valores de custos e resultados de produtividade. Nelas, cabe salientar e percebem-se alguns detalhes importantes: em primeiro, este custo e resultado é meu e provavelmente muito diferente de outros agricultores, cada caso é um caso em agricultura, há peculiaridades de cada região e em segundo, torna-se evidente a alta contínua dos custos e pela minha experiência/opinião, decorrentes da falta de concorrência o que acaba tornando certos setores “oportunistas”.

 

Cada alta do dólar traz um aumento da soja e dos insumos, com uma diferença: na queda do dólar o valor da soja acompanha e dos insumos acaba não descendo tudo de volta. O que pode ser notado no adubo, em 2002 a relação de troca (meu caso foi compra de quase um ano antecipada e, portanto destoante dos demais, com uma relação de 6 sacos de soja para 1 tonelada de adubo) de em torno de 10 sacos de soja por tonelada de adubo, para no dia de hoje, em torno de 25 sacos de soja para 1 tonelada de adubo; 2002 foi um ano atípico, onde no início do ano a tonelada custava em torno de 180 reais e em virtude da eleição e disparada do dólar, perto do plantio o valor passava longe dos 300 reais. O adubo representava de 25 a 30% do custo na época e hoje representa 50%. Minhas compras são hoje em sua maior parte, realizadas no sistema de troca, onde faço um levantamento da necessidade de insumos e fico devendo em soja para pagamento na safra. Alguma coisa ainda é feita via custeio bancário, mas 90% é nesse sistema.

Optei por ele por me trazer uma segurança no que devo. No ano de 2004 tivemos uma das piores secas da história e a lavoura foi formada com soja perto dos 40 reais o saco e na colheita, além da quebra enorme, o preço caiu para os 20 e poucos reais, ou seja, se eu precisava de 20 sacos para pagar as contas quando plantei, terminei a safra precisando de 40 sacos para pagar as contas. Esse foi o ano que parti para o sistema de trocas, o que me trouxe segurança e crescimento.

Hoje a situação de custos da lavoura é completamente diferente da de 2002. Em 2002 usava-se, esporadicamente, fungicida para doenças de final de ciclo e só, inseticida caso aparecesse alguma lagarta. Hoje em dia são 3 a 5 aplicações de fungicida em virtude da ferrugem. Inseticida é obrigatório em função de lagartas e outras pragas (eu optei pelo uso da tecnologia intacta, que me permite a redução de inseticida para lagartas, mas aumento do custo da semente). A mão de obra representa hoje, um elevado custo. Para a redução desses custos, acabei optando por assumir a maioria das operações de campo. Todas essas questões mais que duplicaram os custos fixos da lavoura, sim, a produção aumentou também, mas esta aumenta em torno de 1 a 5% ao ano, os custos perto dos 10%. Resultado visível nos gráficos.

Enfim, a profissão de agricultor hoje, envolve a parte agronômica, administrativa e financeira com ajuste muito fino entre elas. Foi-se o tempo em que se aplicava o que queria e na hora que queria na lavoura. Hoje isso passa por um estudo: é viável? Trará resultado que compense o gasto? Após isso é decidido, ao menos da minha forma de administrar. Cansei de conversa de vendedor, foco no resultado, de nada me adianta gastar 100 reais para retornar 100 ou menos. Isso, do meu ponto de vista, é despesa inútil e com o clima sempre pondo tudo em risco, pode nem retornar. Portanto, sigo por aqui, esperando que a situação do país melhore e possa trazer não só para meu ramo, mas para todos uma esperança de dias melhores.



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