Boi chifrudo: quem é o boi mais chifrudo do mundo, os campeões do Texas e as raças de chifres gigantes

Tem gente que chega aqui procurando por boi chifrudo, outros por boi guampudo, boi de chifre grande, boi com o maior chifre do mundo — e há até quem escreva “boi xifrudo” ou “boi chufrudo” na pressa. Não importa o nome que se dê a ele: o animal que todo mundo quer ver é o mesmo, um bovino com chifres tão largos que não passam por uma porteira comum. Este texto reúne, em um só lugar, quem são os bois mais chifrudos do mundo reconhecidos pelo Guinness, de onde vem o Texas Longhorn, quais outras raças carregam chifres gigantes (inclusive uma brasileira que pouca gente conhece) e, para encerrar uma dúvida antiga, qual é a diferença entre boi e touro.

O boi mais chifrudo do mundo tem nome: Poncho Via

O recorde oficial de maior envergadura de chifres em um boi — a distância medida em linha reta de uma ponta à outra — pertence a Poncho Via, um Texas Longhorn criado pela família Pope em Goodwater, no estado americano do Alabama. Em 8 de maio de 2019, os chifres dele foram medidos em 323,74 centímetros, ou 10 pés e 7,4 polegadas, e o Guinness World Records homologou a marca tanto para “boi vivo” quanto para “boi de todos os tempos”. Para dar uma ideia, a envergadura é maior que a largura do rosto da Estátua da Liberdade e superou por pouco mais de uma polegada o recordista anterior, um boi texano chamado Sato.

O detalhe curioso é que os chifres de Poncho não curvam para cima, como acontece na maioria dos Longhorns: eles crescem quase retos para os lados, o que rende os tais 3,2 metros. Os donos contam que ele é manso, gosta de coçar a cabeça nas pessoas e que a família só percebeu o tamanho da coisa quando ele deixou de caber no trailer.

Boi chifrudo campeão Texas Longhorn com chifres que atravessam a tenda da feira de Zapata, Texas
Boi campeão da raça Texas Longhorn na feira do condado de Zapata, no Texas: os chifres ocupam a tenda de parede a parede. Foto: Carol M. Highsmith / Library of Congress (domínio público).

Bucklehead, o texano que quer o título

Quem acompanha o Farmfor há tempo lembra de Bucklehead, o boi de Rocksprings, no oeste do Texas. Em outubro de 2019, no Horn Showcase da associação de criadores em Lawton, Oklahoma, ele mediu 11 pés e 1,8 polegada — algo como 3,40 metros de ponta a ponta, seis polegadas a mais que Poncho Via. A dona é Marceala Gonzalez, que ganhou o bezerro em um sorteio de criadores quando tinha 8 anos e escolheu justamente ele entre cinco filhotes. Para levá-lo às feiras a família usa o trailer mais largo que a lei permite e cola bolas de tênis nas pontas dos chifres, para ninguém se machucar.

Só que, até hoje, a página oficial do Guinness continua registrando Poncho Via como recordista. A medição de Bucklehead foi feita em evento da raça, e a papelada enviada não virou homologação. Na prática, portanto, existe um “boi mais chifrudo do mundo” oficial (Poncho Via) e um extraoficial (Bucklehead) — e a disputa entre Alabama e Texas segue aberta.

Touro mais chifrudo, vaca mais chifruda e o chifre mais grosso

O Guinness separa as marcas por categoria, porque sexo e castração mudam a forma como o chifre cresce. Entre os touros, o dono do recorde é Cowboy Tuff Chex, com 262,5 centímetros medidos em 4 de outubro de 2019, também em Lawton. Ele vive no Bentwood Ranch, em Fayetteville, Texas, foi avaliado em US$ 500 mil e vende doses de sêmen — já contamos a história dele no post sobre o touro chifrudo campeão da categoria.

Entre as vacas, o recorde é de Sweet Maxi EOT, uma Longhorn medida em Corsicana, Texas, em 8 de outubro de 2022, com 284,16 centímetros de envergadura — mais que muitos touros. E há ainda o título de chifre mais grosso: Lurch, um boi da raça africana Watusi criado em Gassville, Arkansas, tinha chifres com 95,25 centímetros de circunferência na base, medidos em 2003. A envergadura dele, de 2,1 metros, não era a maior, mas cada chifre pesava como um tronco. Lurch morreu em 2010, de um câncer justamente na base de um dos chifres.

Bois da raça Ankole-Watusi com chifres grossos e enormes no zoológico de Houston, Texas
Ankole-Watusi no zoológico de Houston: a raça africana tem os chifres mais grossos entre todos os bovinos. Foto: Carol M. Highsmith / Library of Congress (domínio público).

Texas Longhorn: de onde vem a raça do boi chifrudo

O Longhorn não foi desenhado em laboratório. Ele descende do gado que Cristóvão Colombo desembarcou na ilha de Hispaniola em 1493 e que os espanhóis foram empurrando para o norte ao longo de dois séculos, até chegar ao que hoje é o Texas no fim do século XVII. Solto no mato, sem manejo, o rebanho passou por uma seleção natural brutal: sobreviveu quem aguentava seca, calor, carrapato e coiote — e quem tinha chifre para se defender. A história completa está no site da Texas Longhorn Breeders Association of America, a entidade que organiza o Horn Showcase onde os recordes são medidos.

Depois das grandes tropeadas do século XIX, quando milhões de cabeças subiram a pé do Texas até as ferrovias do Kansas, a raça quase desapareceu, trocada por gado britânico de engorda mais rápida. Ela foi salva em 1927, quando o governo americano reuniu um pequeno rebanho no Wichita Mountains Wildlife Refuge, em Oklahoma, e o Texas criou seu próprio rebanho estadual, hoje mantido pela Texas Historical Commission. Em 16 de junho de 1995 o Longhorn virou o “mamífero grande oficial” do estado — o tatu ficou com o posto de mamífero pequeno, depois de uma eleição simulada entre crianças de escola que terminou empatada.

Tropa de bois chifrudos Texas Longhorn conduzida por vaqueiros a cavalo nos Stockyards de Fort Worth
Duas vezes por dia, o rebanho municipal de Longhorns desfila pela Exchange Avenue, nos Stockyards de Fort Worth. Foto: Carol M. Highsmith / Library of Congress (domínio público).

Hoje o boi chifrudo é um cartão-postal. Em Fort Worth, o rebanho municipal dos Stockyards desfila duas vezes por dia pela rua principal do antigo mercado de gado; o mascote da Universidade do Texas, Bevo, é um Longhorn de verdade; e há criadores que pagam dezenas de milhares de dólares por um animal de exposição. A carne, magra e de sabor forte, virou nicho, mas o negócio grande gira em torno de genética, leilões e das medições anuais de chifre — quem quiser entender por que o gado americano vale tanto hoje pode ler nossa análise sobre boi caro e rebanho curto nos Estados Unidos.

Por que o chifre cresce tanto — e como é medido

O chifre bovino é uma bainha de queratina, a mesma proteína das unhas, sobre um núcleo ósseo ligado ao crânio, e não para de crescer enquanto o animal vive. No Longhorn e no Watusi ele funciona como radiador: o núcleo é atravessado por vasos sanguíneos, e o vento que passa pelo chifre ajuda a baixar a temperatura do sangue — uma vantagem real em climas quentes. Genética, sexo, castração, idade e até a nutrição nos primeiros anos definem o tamanho final. Os maiores chifres de todos aparecem em bois castrados jovens, porque sem testosterona o chifre cresce por mais tempo e mais fino; o touro faz chifre mais grosso e mais curto; a vaca fica no meio, com pontas frequentemente torcidas.

Boi chifrudo Texas Longhorn de pelagem clara com chifres longos entre flores amarelas no Texas
Longhorn no pasto florido do Texas: as pontas do chifre continuam crescendo a vida inteira. Foto: Carol M. Highsmith / Library of Congress (domínio público).

Nas competições existem três medidas: tip to tip (de ponta a ponta, em linha reta, a que vale no Guinness), total horn (o comprimento acompanhando a curva do chifre, de uma ponta à outra passando pela testa) e a circunferência na base. Um boi com chifres em “U” pode ter total horn enorme e envergadura modesta; Poncho Via, com chifres retos, é o contrário. É por isso que rankings de “boi com maior chifre do mundo” às vezes discordam entre si.

Outras raças de chifres gigantes — inclusive no Brasil

O Texas Longhorn é o mais famoso, mas está longe de ser o único bovino chifrudo do planeta. Vale conhecer:

  • Ankole-Watusi (África Oriental): gado de Uganda, Ruanda e Burundi, com chifres que chegam a 2,4 metros de envergadura e circunferência que nenhuma outra raça alcança. Era sinal de riqueza dos reis tutsis e hoje aparece em zoológicos e fazendas de exposição nos Estados Unidos.
  • English Longhorn (Inglaterra): chifres longos que curvam para baixo e para a frente, às vezes passando na frente do focinho. Raça antiga do centro da Inglaterra, valorizada hoje na conservação de pastagens.
  • Highland (Escócia): o boi peludo das Terras Altas tem chifres largos e franja cobrindo os olhos; é um dos animais mais fotografados da Europa rural.
  • Guzerá e Kankrej (Índia e Brasil): zebuínos de chifres em forma de lira, grossos e bem abertos. O Guzerá é a versão brasileira do Kankrej indiano e está entre as raças zebuínas mais antigas do país.
  • Crioula Lageana, o “Franqueiro” (Brasil): o boi mais chifrudo do Brasil. Descende do gado ibérico trazido pelos portugueses no período colonial, levado pelos jesuítas ao Sul e pelos bandeirantes até Franca, no interior paulista — daí o apelido. Os chifres chegam a 2 metros de ponta a ponta. Restam pouco mais de 2 mil cabeças e cerca de 30 criadores oficiais ligados à associação da raça, e a Embrapa trabalha na conservação desse e de outros bovinos crioulos, como o Curraleiro Pé-Duro do Nordeste.
Vaqueiros a cavalo conduzem bois chifrudos Texas Longhorn em rancho de Austin County, Texas
Vaqueiros tocam bois Longhorn no Lonesome Pine Ranch, em Austin County, Texas. Foto: Carol M. Highsmith / Library of Congress (domínio público).

No sentido contrário há a tendência mundial de tirar o chifre. Na pecuária de corte e de leite o gado mocho (sem chifres) é a regra, por segurança no manejo e no transporte, e já existe até vaca holandesa editada geneticamente para nascer sem chifres. A Suíça chegou a levar o assunto às urnas, como contamos no post sobre o plebiscito dos chifres. O boi chifrudo, portanto, é cada vez mais um animal de cultura, exposição e turismo — o que só aumenta o valor dos que carregam os maiores.

Diferença entre boi e touro

Esta é a dúvida que mais aparece junto com as buscas por boi chifrudo, e a resposta é simples. Touro é o macho bovino inteiro, ou seja, não castrado, usado como reprodutor: mais pesado, de pescoço grosso, temperamento mais difícil e chifres curtos e robustos. Boi, no sentido estrito da zootecnia, é o macho castrado — mais dócil, criado para engorda ou para trabalho de carro e arado. No dia a dia do Brasil, porém, “boi” virou palavra genérica para qualquer bovino, e é por isso que se fala em “boi gordo”, “arroba do boi” e “boi chifrudo” mesmo quando o animal da foto é uma vaca. Completando a família: vaca é a fêmea adulta que já pariu, novilha a fêmea jovem, bezerro o filhote e garrote o macho jovem. E, como visto acima, a castração é justamente o que permite os chifres mais longos: os recordistas de envergadura são todos bois, no sentido exato do termo, enquanto o touro mais chifrudo do mundo fica 60 centímetros atrás.

Touro chifrudo da raça Texas Longhorn pastando, com chifres grossos e curvados
Touro Texas Longhorn pastando: chifre mais curto e grosso que o dos bois castrados. Foto: John e Karen Hollingsworth / U.S. Fish and Wildlife Service (domínio público).
Boi castrado Texas Longhorn com chifres longos e retos em rancho de Boerne, Texas
Boi castrado Longhorn em Boerne, Texas: sem testosterona, o chifre cresce mais fino e por mais tempo. Foto: Carol M. Highsmith / Library of Congress (domínio público).

Boi chifrudo, guampudo, aspudo: um animal, muitos nomes

O vocabulário muda com o sotaque. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina o chifre é guampa, e o animal é boi guampudo; no Nordeste ainda se ouve aspa e boi aspudo; e pelo interior do país aparecem “boi de chifrão”, “boi de ponta” e “gado chifrudo”. Já nos Estados Unidos, o “longhorn” é substantivo próprio, e nas feiras o animal é apresentado pela medida em polegadas, como se fosse um carro pela cilindrada. Se você chegou até aqui pesquisando “boi com maior chifre do mundo”, “gado chifrudo” ou “touro chifrudo”, a resposta curta é: Poncho Via, 3,24 metros, oficial; Bucklehead, 3,40 metros, aguardando homologação; Cowboy Tuff Chex, 2,62 metros, entre os touros; Sweet Maxi EOT, 2,84 metros, entre as vacas. Sempre que uma dessas marcas cair, este texto será atualizado.

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