Tratores elétricos para 2026 e 2027

Os tratores elétricos chegam a 2026 com uma biografia mais acidentada do que os folhetos prometiam. A startup que virou símbolo do setor, a californiana Monarch, fechou as portas e teve os ativos comprados pela Caterpillar em abril. A Solectrac, outra pioneira americana, morreu junto com a empresa-mãe. Enquanto isso, os gigantes andam devagar e com os pés no chão: a Fendt vende desde 2025 um elétrico de 68 cv que custa quase o dobro do irmão a diesel, e a John Deere promete para 2027 uma série limitada do seu E-Power de 130 cv. O motor elétrico está chegando ao campo, só que por enquanto fica nos tratores pequenos, nos pomares, nos parreirais e nos serviços municipais. Este é o retrato do que já se compra, do que vem aí e das contas que ainda não fecham. Acompanhamos o tema desde que contamos, em 2020, que a Monarch entraria no mercado.

Quais tratores elétricos já estão à venda em 2026?

A lista é curta e diz muito. Em quase todos os casos, a potência fica abaixo de 100 cv. Nenhum grande fabricante vende hoje um trator elétrico para preparo de solo em lavoura extensiva.

Fendt e100 Vario (Alemanha). É o elétrico de marca tradicional mais acabado da praça. Tem 68 cv nominais, que chegam a 90 cv no pico, bateria de 100 kWh e quatro a sete horas de trabalho em carga parcial. Na tomada rápida de corrente contínua, de 80 kW e padrão CCS, o mesmo dos carros elétricos europeus, vai de 20% a 80% em 45 minutos. Numa tomada doméstica, leva 23 horas. A Fendt produz o modelo em Marktoberdorf, e o preço assustou: no Reino Unido, a versão básica saiu por £ 199 mil, contra £ 115 mil do equivalente a diesel de 79 cv, segundo a Farmers Weekly. A família cresceu com variações de potência, como o e107 exposto na Agritechnica de 2025, e uma versão estreita, a V, para vinhedos e pomares.

Trator elétrico Fendt e107 Vario exposto na Agritechnica 2025
Fendt e107 Vario na Agritechnica 2025, em Hannover. Foto: MarcelX42 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

New Holland T4 Electric Power e Case IH Farmall 75C Electric (CNH). São o mesmo trator com duas pinturas, nascidos de um acordo de licença com a Monarch e apresentados no Farm Progress Show de 2023. Têm 75 cv, 65 cv na tomada de força, bateria de 110 kWh, dos quais 95 kWh são aproveitáveis, e trabalham em média quatro horas por carga, ou até oito em serviço leve, de acordo com a Farmers Weekly. A recarga rápida leva perto de uma hora. São vendidos na América do Norte desde 2024. A CNH não comunicou o que acontece com a linha depois da quebra da Monarch, sua parceira tecnológica, e o silêncio pesa. Quando a New Holland mostrou o protótipo, em 2023, o Farmfor contou a história aqui.

Trator elétrico Case IH Farmall 75C Electric, gêmeo do New Holland T4 Electric Power
Case IH Farmall 75C Electric na Agritechnica 2023. O New Holland T4 Electric Power é o mesmo trator com pintura azul. Foto: MarcelX42 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Kubota LXe-261 (Japão). Pequeno de propósito: 26 cv, bateria de 23,4 kWh, até quatro horas de uso e recarga de zero a 80% em uma hora, pelo padrão japonês CHAdeMO. A Kubota o oferece na Europa para parques, reservas e áreas verdes, onde o silêncio vale tanto quanto o torque.

Trator elétrico compacto Kubota LXe-261
Kubota LXe-261, elétrico compacto de 26 cv. Foto: Kubota Deutschland / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Xeevo E904i (China). A resposta chinesa chegou à Agritechnica de 2025 com 90 cv, um impulso de 122 cv por 30 segundos, dois motores, um para a tração e outro para a tomada de força, bateria de 103 kWh e recarga de cerca de uma hora em carregador de 120 kW. Fabricado pela ZSHX, de Pequim, custa por volta de € 100 mil na Alemanha, segundo a revista profi, que é metade do preço do Fendt com mais potência. É o tipo de concorrência que tira o sono das marcas europeias.

Trator elétrico chinês Xeevo E904i na Agritechnica 2025
Xeevo E904i, elétrico chinês de 90 cv, na Agritechnica 2025. Foto: MarcelX42 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Rigitrac SKE 50 Electric (Suíça). Fabricado em série pequena por uma empresa familiar suíça, tem 68 cv, bateria de 80 kWh e cerca de cinco horas de autonomia, segundo a Future Farming. O comprador típico são prefeituras e haras. A primeira série teve dez unidades, a cerca de 200 mil francos suíços cada uma.

Trator elétrico suíço Rigitrac SKE 50 Electric
Rigitrac SKE 50 Electric, produzido em pequena série na Suíça. Foto: MarcelX42 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O que aconteceu com a Monarch, a promessa do trator elétrico?

Poucas histórias recentes do agro ensinam tanto. A Monarch, de Livermore, na Califórnia, prometia um trator elétrico, autônomo e conectado, o MK-V: 40 cv contínuos e 70 cv de pico, 10 a 14 horas de trabalho por carga e um preço de lançamento anunciado de US$ 68 mil, que subiu depois para perto de US$ 90 mil. Captou mais de US$ 200 milhões em oito anos e chegou a fabricar algumas centenas de unidades numa fábrica da Foxconn em Ohio.

Trator elétrico Monarch MK-V trabalhando em vinhedo com roçadeira
Monarch MK-V com roçadeira entre vinhedos, o uso para o qual ele foi pensado. Foto: Dasubaco / Wikimedia Commons (CC0).

Aí a coisa desandou. Segundo o TechCrunch, três revendas processaram a empresa alegando que os tratores eram “defeituosos” e “incapazes de operar de forma autônoma”. A Foxconn vendeu a fábrica em agosto de 2025 e a Monarch ficou sem onde produzir. Vieram demissões em série e uma mudança de rumo para licenciar software. Em fevereiro de 2026, mais de cem MK-V novos foram a leilão. Em abril, a Caterpillar comprou o que sobrou, por valor não divulgado. A lição é dura e vale para o setor inteiro. O trator elétrico em si funcionava. O que afundou a empresa foi a autonomia vendida antes de estar pronta, somada a uma estrutura industrial de startup tentando competir com fabricantes centenários.

Quais modelos estão previstos para 2027?

John Deere E-Power. É o lançamento mais esperado. O protótipo de 130 cv apareceu na Agritechnica de novembro de 2025 e voltou à feira Grüne Woche, em Berlim, em janeiro de 2026. Tem bateria modular, de três a cinco módulos e até 195 kWh, fabricada pela austríaca Kreisel, que hoje pertence majoritariamente à Deere. Segundo a Future Farming, ele terá série limitada em 2027 e venda mundial a partir de 2028, com foco em fruticultura, viticultura e serviços municipais. A Deere ainda não divulgou preço, autonomia nem tempo de recarga. A peça mais interessante do pacote talvez nem seja o trator, e sim o carregador Chimero, que tem bateria própria de 115 kWh: ele acumula energia devagar numa rede rural fraca e a despeja depressa no trator.

Protótipo do trator elétrico John Deere E-Power de 130 cv
Protótipo do John Deere E-Power, de 130 cv, na Agritechnica 2025. Série limitada prevista para 2027. Foto: MarcelX42 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Além dele, o horizonte de 2027 tem mais híbridos e combustíveis alternativos do que elétricos puros. Isso diz muito sobre onde a indústria acha que está o limite da bateria.

Híbrido, metano ou hidrogênio: quem disputa espaço com a bateria?

Steyr Hybrid CVT. A marca austríaca da CNH acrescentou um conjunto elétrico, com gerador e motores, a um trator diesel de 180 cv. Com o impulso elétrico ele chega a 260 cv, e a fabricante fala em 15% menos combustível. Ganhou medalha de prata de inovação na Agritechnica de 2023 e segue em pré-série. É o caminho de quem quer o benefício elétrico sem abrir mão do tanque.

Trator híbrido Steyr Hybrid CVT na Agritechnica 2023
Steyr Hybrid CVT, diesel com gerador e motores elétricos, na Agritechnica 2023. Foto: MarcelX42 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

New Holland T6.180 Methane Power. Roda a gás metano, inclusive biometano feito na própria fazenda a partir de dejetos, e está em produção em série desde 2021. Em março daquele ano já falávamos que o trator a gás da New Holland seria vendido. Tem a vantagem prosaica de abastecer em minutos e de usar a mecânica que o mecânico já conhece.

Trator New Holland T6.180 Methane Power movido a metano
New Holland T6.180 Methane Power, movido a metano ou biometano. Foto: Bene Riobó / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Fendt Helios. O trator a hidrogênio da Fendt tem célula de combustível de 100 kW, bateria de 25 kWh, cinco tanques com 4,2 kg de hidrogênio cada, a 700 bar, e de cinco a oito horas de trabalho. Por enquanto roda só em protótipos com clientes selecionados, como mostrou a Farmers Weekly. O hidrogênio resolve o problema da autonomia e cria outro: quase não há onde abastecer. A New Holland já tinha um protótipo a hidrogênio em 2009, como lembramos em trator da New Holland tem hidrogênio na cabeça, e de lá para cá a promessa não saiu do protótipo.

Trator a hidrogênio Fendt Helios com tanques no teto e reservatório frontal
Fendt Helios, a hidrogênio, na Agritechnica 2023: os tanques ficam no teto da cabine; o reservatório laranja na frente é um implemento Amazone. Foto: MB-one / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Quanto dura a bateria de um trator elétrico, e quanto tempo leva para carregar?

A autonomia real dos modelos à venda fica entre quatro e oito horas de serviço leve ou médio. É suficiente para uma jornada num pomar. Não serve para uma noite inteira de grade aradora. A revista profi mediu que o Fendt e100 entrega cerca de um quarto do trabalho que o irmão a diesel faz com um tanque cheio.

O tempo de recarga é onde houve a evolução mais visível. A primeira geração dependia de corrente alternada: o Monarch levava de cinco a seis horas num carregador de 80 ampères e o dobro disso num de 40. Os modelos atuais aceitam corrente contínua rápida e encurtaram a parada para perto de uma hora. São 45 minutos de 20% a 80% no Fendt, cerca de uma hora no Xeevo, no Kubota e nos CNH. Ainda é muito para quem está acostumado a encher o tanque em dez minutos, mas já cabe na pausa do almoço.

Plugue de recarga rápida CCS Combo 2, padrão usado pelo trator elétrico Fendt e100
Plugue CCS Combo 2, o mesmo padrão de recarga rápida dos carros elétricos europeus, adotado pelo Fendt e100 Vario. Foto: Danilo Bargen / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Sobre a vida útil da bateria, há menos certeza do que se gostaria. A Fendt oferece garantia de oito anos ou 8 mil horas, mas ela é opcional e cobrada à parte: £ 2,46 por hora de uso, quase £ 20 mil no total. Mesmo quem fabrica parece hesitar em assumir esse risco de graça. Para o produtor, a pergunta que importa é quanto vale o trator usado quando a bateria estiver no fim da vida. Ninguém tem a resposta ainda, porque quase não existe mercado de usados. A pista disponível não anima: tratores Monarch novos foram leiloados às dezenas em 2026.

ModeloPotênciaBateriaAutonomiaRecarga rápidaPreçoSituação
Fendt e100 Vario68 cv (pico 90 cv)100 kWh4 a 7 h20% a 80% em 45 min (80 kW CC)£ 199 mil (Reino Unido)à venda
New Holland T4 Electric / Case IH Farmall 75C Electric75 cv110 kWh (95 úteis)4 h em média, até 8 hcerca de 1 hn.d.à venda na América do Norte; futuro incerto
Kubota LXe-26126 cv23,4 kWhaté 4 h0% a 80% em 1 hn.d.à venda na Europa (áreas verdes)
Xeevo E904i90 cv (122 cv no impulso)103 kWh4 a 8 hcerca de 1 h (120 kW)cerca de € 100 milà venda na China e na Alemanha
Rigitrac SKE 50 Electric68 cv80 kWhcerca de 5 hn.d.cerca de CHF 200 milsérie pequena
Monarch MK-V40 cv (pico 70 cv)75 a 80 kWh*10 a 14 h5 a 6 h (CA, 80 A)US$ 68 mil a 90 milfabricante extinta; ativos com a Caterpillar
John Deere E-Power130 cvaté 195 kWhn.d.n.d.n.d.série limitada em 2027
Dados dos fabricantes e da imprensa especializada citada no texto. n.d.: não divulgado. *As fontes divergem sobre a capacidade da bateria do Monarch.

Por que os tratores elétricos ainda não pegaram?

A física explica a maior parte. Um quilo de diesel guarda dezenas de vezes mais energia que um quilo de bateria de íon-lítio, e a diferença continua enorme mesmo descontando a energia que o motor a combustão perde em calor. Num carro, isso se resolve com aerodinâmica e frenagem regenerativa. Num trator que puxa uma grade o dia inteiro, não há como resolver. Jahmy Hindman, diretor de tecnologia da John Deere, resumiu a conta em 2023, falando de um trator grande da série 8R, ao site Ambrook: movido a bateria, ele teria “o dobro do volume, o dobro do peso e quatro vezes o custo”. O peso extra traz junto um problema agronômico, a compactação do solo, que o cientista de solos Rattan Lal, da Universidade Estadual de Ohio, chama de “problema sério”.

Trator a diesel arando lavoura vista do alto, serviço pesado que os tratores elétricos ainda não fazem
Preparo de solo com trator a diesel: o serviço pesado e contínuo segue fora do alcance das baterias atuais. Foto: Petar Milošević / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Depois vem o preço. O Fendt elétrico custa 73% mais que o equivalente a diesel no Reino Unido, e a profi foi ácida no teste: o e100 seria “muito mais uma solução para clientes de grande porte que buscam marcar o quadradinho da sustentabilidade” do que uma máquina pensada em “custo e bom senso”. Os incentivos que ajudavam a fechar a conta também encolheram. Nos Estados Unidos, o crédito tributário federal para veículos comerciais limpos, de até US$ 40 mil, acabou para compras feitas depois de 30 de setembro de 2025. Sobrou o programa estadual da Califórnia, que chegou a dar até US$ 30 mil de desconto por trator.

Por fim, a tomada. Recarga rápida pede rede trifásica robusta, e boa parte do interior do mundo, do Brasil inclusive, é atendida por redes monofásicas pensadas para iluminar a casa e tocar uma bomba d’água. Não é à toa que a Deere desenhou um carregador com bateria própria. Quem gera energia solar na fazenda tem uma vantagem real: carrega o trator com o próprio telhado, ou com painéis instalados sobre a lavoura.

Painéis solares instalados na borda de uma lavoura
Painéis solares na borda de uma lavoura: energia própria é o que torna o trator elétrico mais barato de rodar. Foto: Wikideas1 / Wikimedia Commons (CC0).
Usina agrivoltaica com painéis solares elevados sobre lavoura de cereais na Alemanha
Usina agrivoltaica em Heggelbach, na Alemanha: painéis elevados sobre a lavoura geram energia sem tirar a área de produção. Foto: Tobi Kellner / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Quantos produtores já usam trator elétrico?

Poucos, e os números confirmam. A consultoria MarketsandMarkets estima que o mercado mundial sairia de US$ 0,7 bilhão em 2024 para US$ 3,4 bilhões em 2030, com a Europa na frente, segundo projeção publicada em 2024. Outras consultorias chegam a valores muito menores para o mesmo período, o que mostra o tamanho da incerteza. A Índia, maior mercado de tratores do mundo em unidades, tinha só 127 tratores elétricos registrados até agosto de 2024, segundo levantamento do WRI Índia. No Brasil, não há trator elétrico agrícola produzido em série. O projeto mais concreto é de uma fabricante de Joinville (SC), que investe com a Finep no desenvolvimento de modelos de até 70 cv para a agricultura familiar.

O trator elétrico vai baratear o trator a diesel?

Não há sinal disso, e convém desconfiar de quem afirme o contrário. O elétrico ainda é um nicho pequeno demais para mexer no preço dos tratores convencionais. O que pesa sobre eles hoje é o ciclo do mercado. Nos Estados Unidos, as vendas de tratores caíram 10,9% em julho de 2026 sobre o mesmo mês do ano anterior, segundo a AEM, a associação dos fabricantes. No Brasil, a projeção da indústria para 2026 também é de queda, como explicamos em por que 2026 pode ser o fundo do ciclo. Mercado fraco abre espaço para negociar desconto, e isso nada tem a ver com bateria.

O efeito pode correr no sentido contrário. As normas de emissão cada vez mais duras, com filtros, catalisadores e o uso de Arla 32, já encareceram o diesel moderno. Se o combustível continuar caro, a diferença de custo de operação começa a favorecer o elétrico nos tratores pequenos, em que a bateria já dá conta do serviço. É por esse caminho, mais do que pelo preço de tabela, que o motor elétrico deve ganhar terreno.

Vale a pena comprar um trator elétrico agora?

Para a maioria dos produtores de grãos, ainda não. Faz sentido onde quatro a oito horas de trabalho leve resolvem: pomar, vinhedo, horta, estufa, granja, serviço de pátio e manutenção de áreas verdes. Ajuda muito se a propriedade já gera energia solar, porque aí o custo por hora despenca, e se houver assistência técnica capacitada por perto. Antes de assinar, três perguntas evitam arrependimento. Quem garante a bateria, e por quanto? A rede elétrica da fazenda aguenta a recarga rápida? A fabricante vai existir daqui a cinco anos? A última pergunta, depois da Monarch, deixou de soar como exagero. Para quem quer o contexto do debate, vale reler trator elétrico vale a pena?, de 2023. Muito do que se discutia ali continua em aberto, e uma parte das promessas ficou pelo caminho.

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