Agricultura na África: como funciona, os destaques de cada país e os números do comércio

A agricultura na África emprega metade dos trabalhadores ao sul do Saara, produz perto de 70% do cacau do mundo e, ainda assim, fecha a conta no vermelho. Em 2023 o continente exportou US$ 93,3 bilhões em produtos agrícolas e importou cerca de US$ 110 bilhões, segundo o Africa Agricultural Trade Monitor 2025. É importador líquido de comida desde 2006, e só cinco países vendem mais do que compram: África do Sul, Costa do Marfim, Quênia, Gana e, num empate técnico, Marrocos. O desenho se repete de uma ponta à outra do mapa. Sai o que é tropical e cabe num contêiner, como cacau, café, chá, caju, abacate e flores. Entra o que é grão, óleo e açúcar. Este guia mostra, país a país, o que cada um planta, quanto exporta e importa e onde ficam os dados oficiais, com os números disponíveis no fim de setembro de 2026. No meio do caminho há um quadro sobre o sócio que mais cresce no campo africano: a China.

Como funciona a agricultura na África

Quem imagina a lavoura africana típica deve pensar em alguns hectares de milho, mandioca ou sorgo, plantados na enxada, com semente guardada da safra anterior e à espera da chuva. A maior parte da comida do continente sai de propriedades familiares assim. Os números do Banco Mundial explicam o resto: na África Subsaariana a colheita média de cereais foi de 1.453 quilos por hectare em 2024, pouco mais de um terço da média mundial, de 3.955 quilos. O uso de fertilizante ficou em 19,6 quilos por hectare em 2023, contra 137,6 no mundo. Menos de 5% da área cultivada é irrigada. A agropecuária responde por 17,9% do PIB da região e por 49,3% dos empregos, enquanto no mundo esses números são 4% e 25,8%.

Agricultor segura raízes de mandioca recém-arrancadas numa lavoura na Nigéria
Mandioca recém-colhida na Nigéria, maior produtora mundial da raiz. A lavoura africana típica é assim: poucos hectares, trabalho manual e quase nenhum adubo. Foto: OnyekeEjike / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O continente tenta mudar essa conta há vinte anos. Em 2006, na Declaração de Abuja, os governos prometeram elevar o uso de adubo de 8 para 50 quilos por hectare até 2015, e a meta não foi cumprida. Em 2024, em Nairóbi, a União Africana trocou o alvo: triplicar a produção interna de fertilizantes até 2034 e recuperar 30% dos solos degradados, conforme a declaração oficial. Em janeiro de 2025 veio a Declaração de Kampala, que guia o programa agrícola do bloco até 2035: aumentar a produção agroalimentar em 45%, cortar pela metade as perdas pós-colheita, triplicar o comércio agrícola entre os próprios países africanos e mobilizar US$ 100 bilhões em investimento. Esse último ponto depende da Zona de Livre Comércio Continental Africana, que já tem 49 países que a ratificaram, mas em que o comércio pelas regras novas ainda engatinha.

E a famosa terra livre? A frase de que a África tem 60% da terra arável não cultivada do planeta nasceu num relatório da consultoria McKinsey, de 2010, e é repetida até hoje por bancos e governos. Vale ler com desconto: a conta inclui florestas, pastagens e áreas que já sustentam alguém, e muita gente a cita errado, como se fosse 60% de toda a terra arável do mundo, quando a fatia africana é de cerca de 16%. Contamos esse paradoxo em Agronegócio na África: o continente que guarda a maior reserva de terra arável do mundo.

Exportações e importações agrícolas da África: o saldo de cada país

O que falta no prato africano é, sobretudo, grão. A conta de importação de alimentos da África Subsaariana foi de US$ 62,8 bilhões em 2024 e deve ter chegado a US$ 65 bilhões em 2025, segundo o Food Outlook da FAO. Um terço disso, US$ 21,9 bilhões, é trigo, arroz, cevada e farinha. No norte do continente o peso é ainda maior: Egito e Argélia estão entre os maiores compradores de trigo do planeta. A tabela resume os países que aparecem neste guia. Ela junta estatísticas nacionais com o banco de dados da ONU, e por isso os anos variam; o que importa aqui é a ordem de grandeza e o sinal do saldo.

País Exportações agrícolas Importações agrícolas Ano Principal produto exportado
África do Sul US$ 15,1 bi US$ 7,8 bi 2025 citros, milho, frutas, vinho
Egito US$ 11,5 bi US$ 19,0 bi 2025 / 2024 laranja, batata
Costa do Marfim US$ 9,7 bi US$ 3,6 bi 2024 cacau, caju
Marrocos US$ 9,1 bi US$ 10,3 bi 2025 tomate, frutas vermelhas
Uganda US$ 4,8 bi US$ 2,0 bi 2025 café
Quênia US$ 4,8 bi US$ 3,6 bi 2025 chá, flores
Nigéria US$ 3,2 bi US$ 4,0 bi 2024 cacau, gergelim, caju
Gana US$ 3,2 bi US$ 3,25 bi 2024 cacau
Tanzânia US$ 3,2 bi US$ 1,4 bi 2025 caju, tabaco
Etiópia US$ 2,6 bi US$ 2,4 bi 2023 café, gergelim
Zimbábue US$ 1,6 bi US$ 1,8 bi 2024 tabaco
Zâmbia US$ 1,0 bi US$ 0,9 bi 2024 tabaco, açúcar, milho
Moçambique US$ 0,97 bi US$ 2,1 bi 2025 tabaco, feijão, caju
Senegal US$ 0,93 bi US$ 2,15 bi 2024 amendoim, pescado
Argélia sem total oficial US$ 11,0 bi 2024 tâmaras
Angola US$ 0,08 bi US$ 2,1 bi 2024 café, banana
Fontes: ministérios e bancos centrais (Egito, Marrocos, Argélia), Agbiz (África do Sul), USDA (Costa do Marfim, Gana, Angola) e UN Comtrade, capítulos 1 a 24 do Sistema Harmonizado, para os demais.

Agricultura no Norte da África

Ao norte do Saara a agricultura depende de rio, de poço ou de chuva de inverno, e a pergunta que tira o sono dos governos é sempre a mesma: quanto trigo vai ser preciso comprar este ano.

Agricultura no Egito: dados de exportação de laranja e importação de trigo

Agricultores aram a terra com dois bois na margem do rio Nilo em Qena, no Egito
Aração com bois na margem do Nilo, em Qena, no Alto Egito: quase toda a agricultura egípcia depende da água do rio. Foto: David Broad / Wikimedia Commons (CC BY 3.0).

Quase tudo o que o Egito planta depende da água do Nilo, numa faixa estreita de terra que vai de Assuã ao delta. Dessa faixa sai o maior exportador de laranja do mundo, posto que o país ocupa há seis safras seguidas. Na temporada 2025/26 foram 2,44 milhões de toneladas de citros embarcadas, 16% a mais que na anterior, sendo 1,83 milhão de toneladas de laranja, que renderam US$ 938 milhões, segundo a FreshPlaza. Somando batata, batata-doce, uva e hortaliças, as exportações agrícolas bateram recorde de US$ 11,5 bilhões em 2025, para 167 países, de acordo com o serviço de informação do governo.

O outro lado da balança é o pão. Com 110 milhões de habitantes e pão subsidiado, o Egito deve importar 12,5 milhões de toneladas de trigo em 2026/27, segundo o USDA. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026 chegaram 8,8 milhões de toneladas, 5,3 milhões da Rússia e 2,2 milhões da Ucrânia. O país também compra fora cerca de 70% do óleo de cozinha que consome. Por isso cada navio parado no Mar Negro vira problema no Cairo, como mostramos em E se a Ucrânia parasse de exportar alimentos?

Exportações agrícolas: US$ 11,5 bilhões em 2025, recorde (Ministério da Agricultura)
Importações agrícolas: US$ 19,0 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado)
Agropecuária no PIB: 16,6% · no emprego: 17,5% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura e Recuperação de Terras, moa.gov.eg; estatística: CAPMAS

Agricultura no Marrocos: dados da safra de cereais, fosfato e exportação de hortifrúti

O Marrocos tem duas agriculturas. Uma é irrigada, voltada para a Europa, e vendeu US$ 9,1 bilhões em 2025, puxada por tomate, frutas vermelhas e abacate, segundo a Morocco World News. A outra planta trigo e cevada no sequeiro e passou seis anos apanhando da seca: 3,1 milhões de toneladas de cereais em 2024 e 4,4 milhões em 2025. As chuvas do início de 2026 viraram o jogo. A safra prevista é de 9 milhões de toneladas, e o governo suspendeu as compras externas de trigo, conforme a Hespress. Ainda assim, a conta de alimentos importados foi de US$ 10,3 bilhões em 2025.

O trunfo marroquino, no entanto, está debaixo da terra. O país guarda mais de 70% das reservas mundiais de rocha fosfática, e a estatal OCP é uma das maiores fabricantes de adubo fosfatado do planeta, fornecedora importante do Brasil. Explicamos esse mercado em Quem fabrica os fertilizantes do mundo e quem depende deles.

Exportações agrícolas: US$ 9,1 bilhões (86,2 bi de dirhams) em 2025
Importações agrícolas: US$ 10,3 bilhões em alimentos em 2025 (Office des Changes)
Agropecuária no PIB: 10,5% · no emprego: 27,9% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Pesca Marítima, Desenvolvimento Rural e Águas e Florestas (agriculture.gov.ma, fora do ar em 29/9/2026); sanidade e exportação: ONSSA; estatística: HCP

Agricultura na Argélia: dados de importação de trigo e a aposta no Saara

A Argélia colhe perto de 3 milhões de toneladas de trigo e compra cerca de 9,2 milhões, segundo estimativa do USDA citada pela Milling MEA, a maior parte da Rússia. Em 2024 a conta de alimentos importados subiu 10,7%, para US$ 10,97 bilhões. A resposta do governo está no deserto: na safra 2025/26 os pivôs centrais irrigaram cerca de 150 mil hectares de cereais no Saara, 40 mil a mais que no ano anterior. Há capital estrangeiro grande no meio. A catariana Baladna toca em Adrar um projeto de leite de US$ 3,5 bilhões, com meta de 270 mil vacas, e a italiana Bonifiche Ferraresi planta trigo em 36 mil hectares em Timimoun. A dúvida, que ninguém responde com segurança, é por quanto tempo o aquífero fóssil aguenta. Na exportação a Argélia quase não aparece, a não ser pelas tâmaras Deglet Nour: 67 mil toneladas vendidas em 2024, por US$ 108 milhões, segundo a Ecofin.

Exportações agrícolas: sem total oficial consolidado; tâmaras renderam US$ 108 milhões em 2024
Importações agrícolas: US$ 10,97 bilhões em alimentos em 2024 (Banco da Argélia)
Agropecuária no PIB: 14,5% · no emprego: 9,5% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pesca, madr.gov.dz; estatística: ONS

Agricultura na África Ocidental

Produtor espalha amêndoas de cacau para secar ao sol numa fazenda da região Ashanti, em Gana
Secagem de amêndoas de cacau em Juaben, na região Ashanti, em Gana, segundo maior produtor mundial. Foto: King Bangaba / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

É daqui que sai o chocolate do mundo. Costa do Marfim e Gana respondem, juntas, por perto de metade do cacau do planeta, e a região também lidera em caju, amendoim, inhame e mandioca.

Agricultura na Costa do Marfim: dados de produção e exportação de cacau e caju

A Costa do Marfim colheu 1,85 milhão de toneladas de cacau em 2024/25, de uma produção mundial de 4,72 milhões, segundo a Organização Internacional do Cacau. Com o preço internacional nas alturas, só a amêndoa rendeu US$ 8,95 bilhões naquela temporada, 61% a mais que na anterior. O produtor viu pouco disso. O Conselho Café-Cacau vende a safra adiantada, e quando a bolsa despencou em 2026 o preço mínimo pago na roça caiu de 2.800 para 1.200 francos CFA por quilo, corte que vale para a safra principal aberta em 1º de setembro, segundo a Ecofin. O país também é o maior produtor mundial de castanha de caju, com cerca de 1,5 milhão de toneladas, e hoje já processa em casa perto de 40% dela. Na outra ponta, importou o recorde de 1,93 milhão de toneladas de arroz em 2024/25. Para quem exporta cacau à Europa, a próxima dor de cabeça é a lei antidesmatamento, tema de EUDR 2026: rastreabilidade por talhão.

Exportações agrícolas: US$ 9,7 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado); só o cacau em amêndoa rendeu US$ 8,95 bilhões em 2024/25 (USDA)
Importações agrícolas: US$ 3,6 bilhões em 2024 (USDA)
Agropecuária no PIB: 16,8% · no emprego: 45,4% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, agriculture.gouv.ci; cacau: Conseil du Café-Cacao; estatística: INS

Agricultura em Gana: dados da safra de cacau e o garimpo ilegal

Gana é o segundo maior produtor de cacau do mundo e o exemplo de como uma cadeia pode desmoronar. A produção caiu de 1,04 milhão de toneladas em 2020/21 para 531 mil em 2023/24, com lavouras velhas, doença do broto inchado e o garimpo ilegal de ouro, o galamsey, que até o fim de 2024 tinha destruído 30 mil hectares de cacauais. A recuperação veio em 2025/26, com cerca de 771 mil toneladas, acima da meta da estatal COCOBOD, segundo relatório citado pela CNBC Africa. O cacau rendeu US$ 3,8 bilhões em 2025, o dobro de 2024, mas quem manda na pauta é o ouro, com US$ 20 bilhões. Para 2026/27 o governo fixou o preço ao produtor em 42.400 cedis por tonelada, cerca de 75% acima do que paga a vizinha Costa do Marfim. A diferença convida ao contrabando no sentido contrário ao dos últimos anos, e os dois países sabem disso.

Exportações agrícolas: US$ 3,2 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado); cacau: US$ 3,8 bilhões em 2025 (Banco de Gana)
Importações agrícolas: US$ 3,25 bilhões em 2024 (USDA)
Agropecuária no PIB: 21,3% · no emprego: 34,6% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Alimentação e Agricultura, mofa.gov.gh; cacau: COCOBOD; estatística: GSS

Agricultura na Nigéria: dados de mandioca, inflação de alimentos e exportações

A Nigéria é o maior produtor mundial de mandioca e de inhame, com volumes na casa de 60 milhões de toneladas de cada, pelos dados da FAO, e mesmo assim não consegue baratear a comida de seus 230 milhões de habitantes. A inflação de alimentos foi de 19,57% em agosto de 2026, a primeira queda em seis meses, contra 25,3% um ano antes, segundo o escritório nacional de estatística citado pela Nairametrics. O agro foi 41% das exportações não petrolíferas em 2025, algo como 5,1 trilhões de nairas, com o cacau muito à frente, seguido de caju e gergelim, que vai quase todo para a China e o Japão. O saldo, porém, virou: no primeiro semestre de 2026 as importações agrícolas superaram as exportações em 56 bilhões de nairas. Trigo, açúcar e peixe congelado são os itens mais pesados da compra.

Exportações agrícolas: US$ 3,2 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado); cerca de ₦ 5,1 trilhões em 2025 (NBS)
Importações agrícolas: US$ 4,0 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado)
Agropecuária no PIB: 23,0% · no emprego: 33,5% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério Federal da Agricultura e Segurança Alimentar, agriculture.gov.ng; estatística: NBS

Agricultura no Senegal: dados do amendoim e da importação de arroz

O Senegal colheu 940 mil toneladas de amendoim em 2025/26, 18% a mais que no ano anterior, segundo a agência de estatística ANSD, e pode passar o Sudão como segundo produtor africano. Mais de 90% do que exporta vai para a China. O calcanhar é o arroz, base do prato nacional: o país produz 645 mil toneladas e deve importar 1,66 milhão em 2025/26, segundo o USDA, e o governo tabelou o preço ao consumidor em 300 francos CFA por quilo para 2026. Sobre o mercado mundial do grão, veja Arroz: produção mundial e comércio.

Exportações agrícolas: US$ 0,93 bilhão em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado; US$ 1,37 bilhão com pescado)
Importações agrícolas: US$ 2,15 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 17,1% · no emprego: 29,6% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Soberania Alimentar e Pecuária, agriculture.gouv.sn; estatística: ANSD

Agricultura na África Oriental

Terras altas, duas estações de chuva e o café como moeda forte. No Leste estão os maiores exportadores de café, chá e flores do continente.

Agricultura na Etiópia: dados de exportação de café e a polêmica do trigo

Cafeicultor etíope examina um pé de café em sua propriedade perto de Awassa
O cafeicultor Feleke Dukamo confere a lavoura perto de Awassa, no sul da Etiópia. Café é hoje mais de 30% das exportações do país. Foto: DFID / Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

A Etiópia é o berço do arábica e o maior produtor de café da África, com 11,6 milhões de sacas previstas pelo USDA para 2025/26. O café bateu recorde duas vezes seguidas: cerca de 470 mil toneladas e US$ 2,6 bilhões no ano fiscal encerrado em julho de 2025, e perto de US$ 3,1 bilhões em 2025/26, mais de 30% de tudo o que o país exporta, segundo a Capital Ethiopia. O país tem ainda o maior rebanho da África, com cerca de 70 milhões de bovinos no último levantamento oficial, de 2021. O ponto que exige cuidado é o trigo. O governo diz colher 23 milhões de toneladas e ter chegado à autossuficiência; o USDA estima 6,5 milhões de toneladas, consumo de 7,8 milhões e importação de 1,3 milhão. A distância entre os dois números é grande demais para ser só diferença de método.

Exportações agrícolas: US$ 2,57 bilhões em 2023 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH); café: US$ 3,1 bilhões em 2025/26 (ECTA)
Importações agrícolas: US$ 2,38 bilhões em 2023 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 32,8% · no emprego: 60,1% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, moa.gov.et

Agricultura no Quênia: dados de chá, flores e abacate

O Quênia é o maior exportador de chá preto do mundo, como lembra a Bloomberg, e faturou US$ 1,44 bilhão com o produto em 2025. As flores de corte, que chegam a Amsterdã no avião da madrugada, cresceram 36% em volume no terceiro trimestre de 2025. Com o abacate o país virou o maior exportador da África e, em 2022, o primeiro do continente autorizado a vender a fruta fresca para a China. A colheita de 2025 foi recorde, com 694 mil toneladas, mas a exportação caiu para algo entre 105 mil e 121 mil toneladas, por causa dos desvios no Mar Vermelho e de controles de qualidade impostos em outubro, segundo o Fresh Fruit Portal. O ponto fraco é o milho. O Quênia importou 468 mil toneladas em 2025 e, em setembro de 2026, fechou a compra de 540 mil toneladas da Zâmbia.

Exportações agrícolas: US$ 4,78 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 3,59 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 23,2% · no emprego: 45,8% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Pecuário, kilimo.go.ke

Agricultura na Tanzânia: dados da castanha de caju, do tabaco e do milho

A Tanzânia fechou a safra 2024/25 de castanha de caju com 528 mil toneladas e receita recorde de 1,52 trilhão de xelins, cerca de US$ 600 milhões, segundo o Cashewnut Board. O tabaco virou o principal item da pauta tradicional, com US$ 517 milhões exportados em 2024. O governo diz produzir 128% da comida de que precisa e vende milho aos vizinhos, incluindo um acordo de 650 mil toneladas com a Zâmbia em 2024. O número exato da safra de milho varia conforme a fonte oficial consultada, o que recomenda cautela com recordes anunciados em discurso.

Exportações agrícolas: US$ 3,16 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 1,37 bilhão em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 22,9% · no emprego: 64,6% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura (Wizara ya Kilimo), kilimo.go.tz; caju: Cashewnut Board

Agricultura em Uganda: dados de exportação de café robusta

Nenhum país africano cresceu tanto no café nos últimos dois anos. Uganda exportou 7,77 milhões de sacas no ano fiscal 2024/25 e dobrou a receita, para US$ 2,22 bilhões, com 69% do volume indo para a Europa, segundo a Ecofin. Nos doze meses até maio de 2026 foram 8,6 milhões de sacas e US$ 2,3 bilhões. A imprensa local já fala em Uganda como maior exportadora de café da África; em volume, talvez, mas em valor a Etiópia segue à frente. Detalhe institucional: a autoridade do café, a UCDA, foi extinta por lei em 2024, e suas funções passaram ao Ministério da Agricultura.

Exportações agrícolas: US$ 4,80 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 2,02 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 26,1% · no emprego: 64,9% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Indústria Animal e Pesca (MAAIF), agriculture.go.ug; café: ugandacoffee.go.ug

Agricultura na África Austral

O sul do continente tem a agricultura mais mecanizada e também a mais exposta ao El Niño, que em 2024 cortou pela metade a colheita de milho da Zâmbia e derrubou a de vizinhos.

Agricultura na África do Sul: dados de exportação recorde, citros e milho

Pomar de laranjas carregado na serra de Piekenierskloof, perto de Citrusdal, na África do Sul
Laranjais perto de Citrusdal, no Cabo Ocidental: a África do Sul é a segunda maior exportadora de citros do mundo. Foto: Discott / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

A África do Sul é a potência agrícola exportadora do continente. Vendeu o recorde de US$ 15,1 bilhões em 2025, 10% a mais que em 2024, importou US$ 7,8 bilhões e fechou com superávit de US$ 7,3 bilhões, segundo o economista-chefe da Agbiz, Wandile Sihlobo. Mais da metade das vendas vai para outros países africanos. Nos citros o país é o segundo exportador mundial, atrás só da Espanha, e embarcou 203 milhões de caixas em 2025, cerca de 3 milhões de toneladas, segundo a Ecofin. A tarifa de 30% imposta pelos Estados Unidos em agosto de 2025 derrubou 39% das vendas aos americanos no quarto trimestre, até que a laranja foi isentada em novembro. No milho, a estimativa oficial divulgada em 29 de setembro de 2026 aponta 17,52 milhões de toneladas, 5,2% acima de 2025, o que mantém o país como o grande fornecedor de grão da região. Desde junho de 2026 o ministro da Agricultura é Willie Aucamp, que substituiu John Steenhuisen.

Exportações agrícolas: US$ 15,1 bilhões em 2025, recorde (Agbiz)
Importações agrícolas: US$ 7,8 bilhões em 2025 (Agbiz)
Agropecuária no PIB: 2,8% · no emprego: 5,4% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Department of Agriculture (nda.gov.za, fora do ar em 29/9/2026); dados de mercado: NAMC; pesquisa: ARC; estatística: Stats SA

Agricultura na Zâmbia: dados da safra recorde de milho depois da seca

Em fevereiro de 2024 a Zâmbia declarou desastre nacional por causa da seca do El Niño; a colheita de milho caiu para cerca de 1,5 milhão de toneladas, metade do normal, e a exportação foi proibida. Dois anos depois, o país colhe a maior safra da sua história: 4,94 milhões de toneladas em 2025/26, alta de 28%, segundo o Ministério da Agricultura. O excedente já tem destino: 540 mil toneladas de milho branco para o Quênia. Sobre o risco de um novo El Niño, leia El Niño forte em 2026/27: o impacto nas lavouras.

Exportações agrícolas: US$ 1,00 bilhão em 2024, ano de seca (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 0,91 bilhão em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 4,1% · no emprego: 54,5% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, agriculture.gov.zm; estatística: ZamStats

Agricultura no Zimbábue: dados de tabaco e trigo

O Zimbábue vendeu o recorde de 353 milhões de quilos de tabaco em 2025, 53% a mais que no ano anterior, e pagou pela primeira vez mais de US$ 1 bilhão aos produtores, segundo a bolsa de leilões TIMB. O tabaco é quase um terço das exportações do país, e a China é o maior comprador. No trigo, o governo anunciou 640 mil toneladas em 2025, a maior colheita desde 1966, para um consumo de cerca de 360 mil. Só que as importações de trigo também bateram recorde, como mostrou a The Africa Report, o que põe em dúvida a autossuficiência proclamada.

Exportações agrícolas: US$ 1,62 bilhão em 2024, dos quais US$ 1,43 bilhão em tabaco (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 1,81 bilhão em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 9,5% · no emprego: 54,3% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Mecanização e Recursos Hídricos, agric.gov.zw; tabaco: TIMB

Agricultura em Moçambique: dados de exportação de tabaco, caju e macadâmia

Em Moçambique, 73% dos trabalhadores estão no campo, a maioria plantando mandioca e milho para comer. A pauta de exportação é outra. O tabaco lidera, com US$ 258 milhões em 2025, alta de 16%, segundo o banco central citado pelo Club of Mozambique. A castanha de caju quase triplicou em um ano, de US$ 44 milhões para US$ 122 milhões, e a macadâmia chegou a US$ 40 milhões. O feijão bóer vai quase todo para a Índia. Mesmo assim o país importa o dobro do que exporta em alimentos, sobretudo arroz, trigo e óleo.

Exportações agrícolas: US$ 0,97 bilhão em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 2,11 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 25,6% · no emprego: 73,0% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, agricultura.gov.mz

Agricultura em Angola: dados de produção, importação de alimentos e café

Angola diz que a agricultura já pesa mais que o petróleo na economia. O ministro de Estado José de Lima Massano afirmou em maio de 2026 que o setor passou de 13,7% do PIB em 2015 para 25,4% em 2025, segundo o MINAGRIF, e o Banco Mundial registra número parecido. A campanha 2024/25 somou 30,5 milhões de toneladas, 13,5 milhões delas de mandioca. O país ainda importa mais da metade da comida que consome, mais de US$ 2,1 bilhões em 2024, e o Brasil é o segundo maior fornecedor de alimentos de consumo, com 23% do mercado, atrás só da União Europeia, segundo o USDA. O café, que antes da guerra civil fazia de Angola um nome de peso no mercado, tenta voltar: foram 10.500 toneladas colhidas e 3.288 exportadas em 2025.

Exportações agrícolas: US$ 84 milhões em 2024 (USDA)
Importações agrícolas: mais de US$ 2,1 bilhões em alimentos em 2024 (USDA)
Agropecuária no PIB: 25,2% · no emprego: 51,9% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura e Florestas (MINAGRIF), minagrif.gov.ao

Especial: a influência da China na agricultura africana

A China é hoje o maior parceiro comercial da África, e a distância para o segundo colocado só cresce. Em 2025 o comércio entre os dois somou US$ 348 bilhões, alta de 17,7%, segundo a alfândega chinesa citada pelo governo chinês. A conta é torta: a China vendeu US$ 225 bilhões e comprou US$ 123 bilhões, e o déficit africano beirou US$ 103 bilhões. No primeiro semestre de 2026 o fluxo chegou a US$ 203,5 bilhões, 24% a mais que um ano antes. A agricultura ainda é fatia pequena disso: o comércio agrícola bilateral passou pela primeira vez de 70 bilhões de yuans (cerca de US$ 9,75 bilhões) em 2024, de acordo com o China Daily. Mas é a fatia que Pequim escolheu para mostrar boa vontade.

Tarifa zero. Desde 1º de dezembro de 2024 os 33 países africanos de menor desenvolvimento exportam para a China sem tarifa em 100% das linhas. Em 1º de maio de 2026 o benefício foi estendido a 53 dos 54 países do continente, sem exigir reciprocidade, até abril de 2028. Só ficou de fora Essuatíni, que reconhece Taiwan. O primeiro lote a entrar pela regra nova foram 24 toneladas de maçãs sul-africanas em Shenzhen. O efeito foi imediato: em maio e junho as importações chinesas da África subiram 23,5%, com abacate 130% acima e amendoim descascado multiplicado por 15, segundo o South China Morning Post.

Protocolos, um produto por vez. Tarifa zero não adianta sem licença sanitária, e é aí que a China controla o ritmo. Até junho de 2025 Pequim tinha assinado 22 protocolos de exportação agrícola com 18 países africanos e registrado mais de 2.400 empresas de alimentos do continente, conforme balanço do Ministério das Relações Exteriores chinês. O Quênia foi o primeiro africano a vender abacate fresco para lá, em 2022. O Senegal manda mais de 90% do amendoim que exporta para a China, o Zimbábue vendeu US$ 562 milhões em tabaco aos chineses em 2025 e o café etíope entrou em 2025 com alta de 145% nos cinco primeiros meses do ano. Na África do Sul o protocolo de citros foi ampliado em abril de 2026, mas a carne bovina está barrada desde maio de 2025 por causa da febre aftosa.

Dinheiro, técnicos e sementes. Na cúpula do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) de setembro de 2024, Xi Jinping prometeu 360 bilhões de yuans em três anos, a maior parte em crédito. A fatia agrícola é modesta e bem desenhada: 1 bilhão de yuans em ajuda alimentar de emergência, 100 mil mu (cerca de 6.670 hectares) de áreas-modelo, 500 agrônomos enviados e dez centros de demonstração novos ou reformados, segundo o Plano de Ação de Pequim 2025–2027. Eles se somam a cerca de duas dezenas de centros de tecnologia agrícola que a China já mantém no continente, onde ensina arroz híbrido, mandioca e o cultivo de cogumelos em juncao, um capim que também vira forragem. A próxima cúpula do FOCAC está prevista para 2027, na República do Congo.

A lenda da grilagem. Durante uma década circulou a ideia de que empresas chinesas estavam comprando a África para alimentar a China, com números de até 6 milhões de hectares. A pesquisadora Deborah Bräutigam, da Universidade Johns Hopkins, foi atrás de cada negócio anunciado e achou cerca de 240 mil hectares efetivamente ocupados no fim de 2014; a maior parte dos projetos nunca saiu do papel, relatou a Reuters. Isso não quer dizer que não houve conflito. O projeto de arroz da Wanbao em Xai-Xai, Moçambique, com concessão de 20 mil hectares por 50 anos, começou com denúncias de camponeses expulsos e só depois migrou para um modelo de agricultura por contrato com famílias locais. A correção é de escala, não de inocência.

O lado de baixo da balança. A China também pesa quando fecha a torneira. Em outubro de 2021 passou a exigir inspeção para exportar fertilizantes e tirou do mercado boa parte da ureia e dos fosfatos de que respondia por perto de 30% do comércio mundial, lembrou a Bloomberg. Em março de 2026, com a crise no Estreito de Ormuz, restringiu de novo a venda de DAP e MAP, e o produtor africano, que já usa sete vezes menos adubo que a média mundial, pagou mais caro para comprar do Marrocos e do Oriente Médio. Ao mesmo tempo, as máquinas chinesas avançam: o país exportou 185.539 tratores em 2025, e as vendas de máquinas agrícolas para a África cresceram 41% nos cinco primeiros meses daquele ano. Na prática, o trator que chega hoje a uma cooperativa na Zâmbia ou na Nigéria tem mais chance de ser chinês do que americano ou europeu.

O que vem pela frente para a agricultura africana

O mapa deste guia vai mudar rápido. A população africana deve chegar perto de 2,5 bilhões de pessoas em 2050, e a conta de importação de comida cresce junto. As metas de Kampala para 2035 pedem mais produção por hectare, não mais hectares, e isso passa por adubo, semente e estrada, os três gargalos de sempre. A crise de fertilizantes de 2026 mostrou o tamanho da dependência. Ao mesmo tempo, a tarifa zero chinesa e o comércio dentro do continente abrem mercado para quem conseguir cumprir as exigências sanitárias, e os resultados recentes de Zâmbia, Uganda, Etiópia e Senegal mostram que safra e exportação respondem quando o preço e o clima ajudam.

Para o Brasil, a África é cliente e laboratório. Cliente porque compra frango, açúcar, soja e milho brasileiros, de Angola ao Egito. Laboratório porque o cerrado de Moçambique, a savana da Zâmbia e as terras altas da Etiópia enfrentam os mesmos problemas que o Centro-Oeste resolveu há quarenta anos com calcário, adubo e pesquisa. A geopolítica que liga os dois lados do Atlântico, com a China no centro, está em China, tarifas e Mar Negro redesenham o mapa dos grãos.

Fontes e método. Participação no PIB e no emprego: indicadores NV.AGR.TOTL.ZS e SL.AGR.EMPL.ZS do Banco Mundial (2025; emprego é estimativa modelada da OIT). Comércio agrícola: números nacionais quando existem; nos demais, UN Comtrade, soma dos capítulos 1 a 24 do Sistema Harmonizado, com pescado excluído nos países do Norte e do Oeste e incluído nos do Leste e do Sul. Por isso os valores servem para comparar ordem de grandeza, não para somar. Sites oficiais testados em 29 de setembro de 2026. Dados do continente: ReSAKSS/AKADEMIYA2063, União Africana (CAADP) e FAO.

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