A agricultura na África emprega metade dos trabalhadores ao sul do Saara, produz perto de 70% do cacau do mundo e, ainda assim, fecha a conta no vermelho. Em 2023 o continente exportou US$ 93,3 bilhões em produtos agrícolas e importou cerca de US$ 110 bilhões, segundo o Africa Agricultural Trade Monitor 2025. É importador líquido de comida desde 2006, e só cinco países vendem mais do que compram: África do Sul, Costa do Marfim, Quênia, Gana e, num empate técnico, Marrocos. O desenho se repete de uma ponta à outra do mapa. Sai o que é tropical e cabe num contêiner, como cacau, café, chá, caju, abacate e flores. Entra o que é grão, óleo e açúcar. Este guia mostra, país a país, o que cada um planta, quanto exporta e importa e onde ficam os dados oficiais, com os números disponíveis no fim de setembro de 2026. No meio do caminho há um quadro sobre o sócio que mais cresce no campo africano: a China.
Como funciona a agricultura na África
Quem imagina a lavoura africana típica deve pensar em alguns hectares de milho, mandioca ou sorgo, plantados na enxada, com semente guardada da safra anterior e à espera da chuva. A maior parte da comida do continente sai de propriedades familiares assim. Os números do Banco Mundial explicam o resto: na África Subsaariana a colheita média de cereais foi de 1.453 quilos por hectare em 2024, pouco mais de um terço da média mundial, de 3.955 quilos. O uso de fertilizante ficou em 19,6 quilos por hectare em 2023, contra 137,6 no mundo. Menos de 5% da área cultivada é irrigada. A agropecuária responde por 17,9% do PIB da região e por 49,3% dos empregos, enquanto no mundo esses números são 4% e 25,8%.
O continente tenta mudar essa conta há vinte anos. Em 2006, na Declaração de Abuja, os governos prometeram elevar o uso de adubo de 8 para 50 quilos por hectare até 2015, e a meta não foi cumprida. Em 2024, em Nairóbi, a União Africana trocou o alvo: triplicar a produção interna de fertilizantes até 2034 e recuperar 30% dos solos degradados, conforme a declaração oficial. Em janeiro de 2025 veio a Declaração de Kampala, que guia o programa agrícola do bloco até 2035: aumentar a produção agroalimentar em 45%, cortar pela metade as perdas pós-colheita, triplicar o comércio agrícola entre os próprios países africanos e mobilizar US$ 100 bilhões em investimento. Esse último ponto depende da Zona de Livre Comércio Continental Africana, que já tem 49 países que a ratificaram, mas em que o comércio pelas regras novas ainda engatinha.
E a famosa terra livre? A frase de que a África tem 60% da terra arável não cultivada do planeta nasceu num relatório da consultoria McKinsey, de 2010, e é repetida até hoje por bancos e governos. Vale ler com desconto: a conta inclui florestas, pastagens e áreas que já sustentam alguém, e muita gente a cita errado, como se fosse 60% de toda a terra arável do mundo, quando a fatia africana é de cerca de 16%. Contamos esse paradoxo em Agronegócio na África: o continente que guarda a maior reserva de terra arável do mundo.
Exportações e importações agrícolas da África: o saldo de cada país
O que falta no prato africano é, sobretudo, grão. A conta de importação de alimentos da África Subsaariana foi de US$ 62,8 bilhões em 2024 e deve ter chegado a US$ 65 bilhões em 2025, segundo o Food Outlook da FAO. Um terço disso, US$ 21,9 bilhões, é trigo, arroz, cevada e farinha. No norte do continente o peso é ainda maior: Egito e Argélia estão entre os maiores compradores de trigo do planeta. A tabela resume os países que aparecem neste guia. Ela junta estatísticas nacionais com o banco de dados da ONU, e por isso os anos variam; o que importa aqui é a ordem de grandeza e o sinal do saldo.
| País | Exportações agrícolas | Importações agrícolas | Ano | Principal produto exportado |
|---|---|---|---|---|
| África do Sul | US$ 15,1 bi | US$ 7,8 bi | 2025 | citros, milho, frutas, vinho |
| Egito | US$ 11,5 bi | US$ 19,0 bi | 2025 / 2024 | laranja, batata |
| Costa do Marfim | US$ 9,7 bi | US$ 3,6 bi | 2024 | cacau, caju |
| Marrocos | US$ 9,1 bi | US$ 10,3 bi | 2025 | tomate, frutas vermelhas |
| Uganda | US$ 4,8 bi | US$ 2,0 bi | 2025 | café |
| Quênia | US$ 4,8 bi | US$ 3,6 bi | 2025 | chá, flores |
| Nigéria | US$ 3,2 bi | US$ 4,0 bi | 2024 | cacau, gergelim, caju |
| Gana | US$ 3,2 bi | US$ 3,25 bi | 2024 | cacau |
| Tanzânia | US$ 3,2 bi | US$ 1,4 bi | 2025 | caju, tabaco |
| Etiópia | US$ 2,6 bi | US$ 2,4 bi | 2023 | café, gergelim |
| Zimbábue | US$ 1,6 bi | US$ 1,8 bi | 2024 | tabaco |
| Zâmbia | US$ 1,0 bi | US$ 0,9 bi | 2024 | tabaco, açúcar, milho |
| Moçambique | US$ 0,97 bi | US$ 2,1 bi | 2025 | tabaco, feijão, caju |
| Senegal | US$ 0,93 bi | US$ 2,15 bi | 2024 | amendoim, pescado |
| Argélia | sem total oficial | US$ 11,0 bi | 2024 | tâmaras |
| Angola | US$ 0,08 bi | US$ 2,1 bi | 2024 | café, banana |
Agricultura no Norte da África
Ao norte do Saara a agricultura depende de rio, de poço ou de chuva de inverno, e a pergunta que tira o sono dos governos é sempre a mesma: quanto trigo vai ser preciso comprar este ano.
Agricultura no Egito: dados de exportação de laranja e importação de trigo
Quase tudo o que o Egito planta depende da água do Nilo, numa faixa estreita de terra que vai de Assuã ao delta. Dessa faixa sai o maior exportador de laranja do mundo, posto que o país ocupa há seis safras seguidas. Na temporada 2025/26 foram 2,44 milhões de toneladas de citros embarcadas, 16% a mais que na anterior, sendo 1,83 milhão de toneladas de laranja, que renderam US$ 938 milhões, segundo a FreshPlaza. Somando batata, batata-doce, uva e hortaliças, as exportações agrícolas bateram recorde de US$ 11,5 bilhões em 2025, para 167 países, de acordo com o serviço de informação do governo.
O outro lado da balança é o pão. Com 110 milhões de habitantes e pão subsidiado, o Egito deve importar 12,5 milhões de toneladas de trigo em 2026/27, segundo o USDA. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026 chegaram 8,8 milhões de toneladas, 5,3 milhões da Rússia e 2,2 milhões da Ucrânia. O país também compra fora cerca de 70% do óleo de cozinha que consome. Por isso cada navio parado no Mar Negro vira problema no Cairo, como mostramos em E se a Ucrânia parasse de exportar alimentos?
Exportações agrícolas: US$ 11,5 bilhões em 2025, recorde (Ministério da Agricultura)
Importações agrícolas: US$ 19,0 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado)
Agropecuária no PIB: 16,6% · no emprego: 17,5% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura e Recuperação de Terras, moa.gov.eg; estatística: CAPMAS
Agricultura no Marrocos: dados da safra de cereais, fosfato e exportação de hortifrúti
O Marrocos tem duas agriculturas. Uma é irrigada, voltada para a Europa, e vendeu US$ 9,1 bilhões em 2025, puxada por tomate, frutas vermelhas e abacate, segundo a Morocco World News. A outra planta trigo e cevada no sequeiro e passou seis anos apanhando da seca: 3,1 milhões de toneladas de cereais em 2024 e 4,4 milhões em 2025. As chuvas do início de 2026 viraram o jogo. A safra prevista é de 9 milhões de toneladas, e o governo suspendeu as compras externas de trigo, conforme a Hespress. Ainda assim, a conta de alimentos importados foi de US$ 10,3 bilhões em 2025.
O trunfo marroquino, no entanto, está debaixo da terra. O país guarda mais de 70% das reservas mundiais de rocha fosfática, e a estatal OCP é uma das maiores fabricantes de adubo fosfatado do planeta, fornecedora importante do Brasil. Explicamos esse mercado em Quem fabrica os fertilizantes do mundo e quem depende deles.
Exportações agrícolas: US$ 9,1 bilhões (86,2 bi de dirhams) em 2025
Importações agrícolas: US$ 10,3 bilhões em alimentos em 2025 (Office des Changes)
Agropecuária no PIB: 10,5% · no emprego: 27,9% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Pesca Marítima, Desenvolvimento Rural e Águas e Florestas (agriculture.gov.ma, fora do ar em 29/9/2026); sanidade e exportação: ONSSA; estatística: HCP
Agricultura na Argélia: dados de importação de trigo e a aposta no Saara
A Argélia colhe perto de 3 milhões de toneladas de trigo e compra cerca de 9,2 milhões, segundo estimativa do USDA citada pela Milling MEA, a maior parte da Rússia. Em 2024 a conta de alimentos importados subiu 10,7%, para US$ 10,97 bilhões. A resposta do governo está no deserto: na safra 2025/26 os pivôs centrais irrigaram cerca de 150 mil hectares de cereais no Saara, 40 mil a mais que no ano anterior. Há capital estrangeiro grande no meio. A catariana Baladna toca em Adrar um projeto de leite de US$ 3,5 bilhões, com meta de 270 mil vacas, e a italiana Bonifiche Ferraresi planta trigo em 36 mil hectares em Timimoun. A dúvida, que ninguém responde com segurança, é por quanto tempo o aquífero fóssil aguenta. Na exportação a Argélia quase não aparece, a não ser pelas tâmaras Deglet Nour: 67 mil toneladas vendidas em 2024, por US$ 108 milhões, segundo a Ecofin.
Exportações agrícolas: sem total oficial consolidado; tâmaras renderam US$ 108 milhões em 2024
Importações agrícolas: US$ 10,97 bilhões em alimentos em 2024 (Banco da Argélia)
Agropecuária no PIB: 14,5% · no emprego: 9,5% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pesca, madr.gov.dz; estatística: ONS
Agricultura na África Ocidental
É daqui que sai o chocolate do mundo. Costa do Marfim e Gana respondem, juntas, por perto de metade do cacau do planeta, e a região também lidera em caju, amendoim, inhame e mandioca.
Agricultura na Costa do Marfim: dados de produção e exportação de cacau e caju
A Costa do Marfim colheu 1,85 milhão de toneladas de cacau em 2024/25, de uma produção mundial de 4,72 milhões, segundo a Organização Internacional do Cacau. Com o preço internacional nas alturas, só a amêndoa rendeu US$ 8,95 bilhões naquela temporada, 61% a mais que na anterior. O produtor viu pouco disso. O Conselho Café-Cacau vende a safra adiantada, e quando a bolsa despencou em 2026 o preço mínimo pago na roça caiu de 2.800 para 1.200 francos CFA por quilo, corte que vale para a safra principal aberta em 1º de setembro, segundo a Ecofin. O país também é o maior produtor mundial de castanha de caju, com cerca de 1,5 milhão de toneladas, e hoje já processa em casa perto de 40% dela. Na outra ponta, importou o recorde de 1,93 milhão de toneladas de arroz em 2024/25. Para quem exporta cacau à Europa, a próxima dor de cabeça é a lei antidesmatamento, tema de EUDR 2026: rastreabilidade por talhão.
Exportações agrícolas: US$ 9,7 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado); só o cacau em amêndoa rendeu US$ 8,95 bilhões em 2024/25 (USDA)
Importações agrícolas: US$ 3,6 bilhões em 2024 (USDA)
Agropecuária no PIB: 16,8% · no emprego: 45,4% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, agriculture.gouv.ci; cacau: Conseil du Café-Cacao; estatística: INS
Agricultura em Gana: dados da safra de cacau e o garimpo ilegal
Gana é o segundo maior produtor de cacau do mundo e o exemplo de como uma cadeia pode desmoronar. A produção caiu de 1,04 milhão de toneladas em 2020/21 para 531 mil em 2023/24, com lavouras velhas, doença do broto inchado e o garimpo ilegal de ouro, o galamsey, que até o fim de 2024 tinha destruído 30 mil hectares de cacauais. A recuperação veio em 2025/26, com cerca de 771 mil toneladas, acima da meta da estatal COCOBOD, segundo relatório citado pela CNBC Africa. O cacau rendeu US$ 3,8 bilhões em 2025, o dobro de 2024, mas quem manda na pauta é o ouro, com US$ 20 bilhões. Para 2026/27 o governo fixou o preço ao produtor em 42.400 cedis por tonelada, cerca de 75% acima do que paga a vizinha Costa do Marfim. A diferença convida ao contrabando no sentido contrário ao dos últimos anos, e os dois países sabem disso.
Exportações agrícolas: US$ 3,2 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado); cacau: US$ 3,8 bilhões em 2025 (Banco de Gana)
Importações agrícolas: US$ 3,25 bilhões em 2024 (USDA)
Agropecuária no PIB: 21,3% · no emprego: 34,6% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Alimentação e Agricultura, mofa.gov.gh; cacau: COCOBOD; estatística: GSS
Agricultura na Nigéria: dados de mandioca, inflação de alimentos e exportações
A Nigéria é o maior produtor mundial de mandioca e de inhame, com volumes na casa de 60 milhões de toneladas de cada, pelos dados da FAO, e mesmo assim não consegue baratear a comida de seus 230 milhões de habitantes. A inflação de alimentos foi de 19,57% em agosto de 2026, a primeira queda em seis meses, contra 25,3% um ano antes, segundo o escritório nacional de estatística citado pela Nairametrics. O agro foi 41% das exportações não petrolíferas em 2025, algo como 5,1 trilhões de nairas, com o cacau muito à frente, seguido de caju e gergelim, que vai quase todo para a China e o Japão. O saldo, porém, virou: no primeiro semestre de 2026 as importações agrícolas superaram as exportações em 56 bilhões de nairas. Trigo, açúcar e peixe congelado são os itens mais pesados da compra.
Exportações agrícolas: US$ 3,2 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado); cerca de ₦ 5,1 trilhões em 2025 (NBS)
Importações agrícolas: US$ 4,0 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado)
Agropecuária no PIB: 23,0% · no emprego: 33,5% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério Federal da Agricultura e Segurança Alimentar, agriculture.gov.ng; estatística: NBS
Agricultura no Senegal: dados do amendoim e da importação de arroz
O Senegal colheu 940 mil toneladas de amendoim em 2025/26, 18% a mais que no ano anterior, segundo a agência de estatística ANSD, e pode passar o Sudão como segundo produtor africano. Mais de 90% do que exporta vai para a China. O calcanhar é o arroz, base do prato nacional: o país produz 645 mil toneladas e deve importar 1,66 milhão em 2025/26, segundo o USDA, e o governo tabelou o preço ao consumidor em 300 francos CFA por quilo para 2026. Sobre o mercado mundial do grão, veja Arroz: produção mundial e comércio.
Exportações agrícolas: US$ 0,93 bilhão em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH, sem pescado; US$ 1,37 bilhão com pescado)
Importações agrícolas: US$ 2,15 bilhões em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 17,1% · no emprego: 29,6% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Soberania Alimentar e Pecuária, agriculture.gouv.sn; estatística: ANSD
Agricultura na África Oriental
Terras altas, duas estações de chuva e o café como moeda forte. No Leste estão os maiores exportadores de café, chá e flores do continente.
Agricultura na Etiópia: dados de exportação de café e a polêmica do trigo
A Etiópia é o berço do arábica e o maior produtor de café da África, com 11,6 milhões de sacas previstas pelo USDA para 2025/26. O café bateu recorde duas vezes seguidas: cerca de 470 mil toneladas e US$ 2,6 bilhões no ano fiscal encerrado em julho de 2025, e perto de US$ 3,1 bilhões em 2025/26, mais de 30% de tudo o que o país exporta, segundo a Capital Ethiopia. O país tem ainda o maior rebanho da África, com cerca de 70 milhões de bovinos no último levantamento oficial, de 2021. O ponto que exige cuidado é o trigo. O governo diz colher 23 milhões de toneladas e ter chegado à autossuficiência; o USDA estima 6,5 milhões de toneladas, consumo de 7,8 milhões e importação de 1,3 milhão. A distância entre os dois números é grande demais para ser só diferença de método.
Exportações agrícolas: US$ 2,57 bilhões em 2023 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH); café: US$ 3,1 bilhões em 2025/26 (ECTA)
Importações agrícolas: US$ 2,38 bilhões em 2023 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 32,8% · no emprego: 60,1% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, moa.gov.et
Agricultura no Quênia: dados de chá, flores e abacate
O Quênia é o maior exportador de chá preto do mundo, como lembra a Bloomberg, e faturou US$ 1,44 bilhão com o produto em 2025. As flores de corte, que chegam a Amsterdã no avião da madrugada, cresceram 36% em volume no terceiro trimestre de 2025. Com o abacate o país virou o maior exportador da África e, em 2022, o primeiro do continente autorizado a vender a fruta fresca para a China. A colheita de 2025 foi recorde, com 694 mil toneladas, mas a exportação caiu para algo entre 105 mil e 121 mil toneladas, por causa dos desvios no Mar Vermelho e de controles de qualidade impostos em outubro, segundo o Fresh Fruit Portal. O ponto fraco é o milho. O Quênia importou 468 mil toneladas em 2025 e, em setembro de 2026, fechou a compra de 540 mil toneladas da Zâmbia.
Exportações agrícolas: US$ 4,78 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 3,59 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 23,2% · no emprego: 45,8% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Pecuário, kilimo.go.ke
Agricultura na Tanzânia: dados da castanha de caju, do tabaco e do milho
A Tanzânia fechou a safra 2024/25 de castanha de caju com 528 mil toneladas e receita recorde de 1,52 trilhão de xelins, cerca de US$ 600 milhões, segundo o Cashewnut Board. O tabaco virou o principal item da pauta tradicional, com US$ 517 milhões exportados em 2024. O governo diz produzir 128% da comida de que precisa e vende milho aos vizinhos, incluindo um acordo de 650 mil toneladas com a Zâmbia em 2024. O número exato da safra de milho varia conforme a fonte oficial consultada, o que recomenda cautela com recordes anunciados em discurso.
Exportações agrícolas: US$ 3,16 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 1,37 bilhão em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 22,9% · no emprego: 64,6% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura (Wizara ya Kilimo), kilimo.go.tz; caju: Cashewnut Board
Agricultura em Uganda: dados de exportação de café robusta
Nenhum país africano cresceu tanto no café nos últimos dois anos. Uganda exportou 7,77 milhões de sacas no ano fiscal 2024/25 e dobrou a receita, para US$ 2,22 bilhões, com 69% do volume indo para a Europa, segundo a Ecofin. Nos doze meses até maio de 2026 foram 8,6 milhões de sacas e US$ 2,3 bilhões. A imprensa local já fala em Uganda como maior exportadora de café da África; em volume, talvez, mas em valor a Etiópia segue à frente. Detalhe institucional: a autoridade do café, a UCDA, foi extinta por lei em 2024, e suas funções passaram ao Ministério da Agricultura.
Exportações agrícolas: US$ 4,80 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 2,02 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 26,1% · no emprego: 64,9% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Indústria Animal e Pesca (MAAIF), agriculture.go.ug; café: ugandacoffee.go.ug
Agricultura na África Austral
O sul do continente tem a agricultura mais mecanizada e também a mais exposta ao El Niño, que em 2024 cortou pela metade a colheita de milho da Zâmbia e derrubou a de vizinhos.
Agricultura na África do Sul: dados de exportação recorde, citros e milho
A África do Sul é a potência agrícola exportadora do continente. Vendeu o recorde de US$ 15,1 bilhões em 2025, 10% a mais que em 2024, importou US$ 7,8 bilhões e fechou com superávit de US$ 7,3 bilhões, segundo o economista-chefe da Agbiz, Wandile Sihlobo. Mais da metade das vendas vai para outros países africanos. Nos citros o país é o segundo exportador mundial, atrás só da Espanha, e embarcou 203 milhões de caixas em 2025, cerca de 3 milhões de toneladas, segundo a Ecofin. A tarifa de 30% imposta pelos Estados Unidos em agosto de 2025 derrubou 39% das vendas aos americanos no quarto trimestre, até que a laranja foi isentada em novembro. No milho, a estimativa oficial divulgada em 29 de setembro de 2026 aponta 17,52 milhões de toneladas, 5,2% acima de 2025, o que mantém o país como o grande fornecedor de grão da região. Desde junho de 2026 o ministro da Agricultura é Willie Aucamp, que substituiu John Steenhuisen.
Exportações agrícolas: US$ 15,1 bilhões em 2025, recorde (Agbiz)
Importações agrícolas: US$ 7,8 bilhões em 2025 (Agbiz)
Agropecuária no PIB: 2,8% · no emprego: 5,4% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Department of Agriculture (nda.gov.za, fora do ar em 29/9/2026); dados de mercado: NAMC; pesquisa: ARC; estatística: Stats SA
Agricultura na Zâmbia: dados da safra recorde de milho depois da seca
Em fevereiro de 2024 a Zâmbia declarou desastre nacional por causa da seca do El Niño; a colheita de milho caiu para cerca de 1,5 milhão de toneladas, metade do normal, e a exportação foi proibida. Dois anos depois, o país colhe a maior safra da sua história: 4,94 milhões de toneladas em 2025/26, alta de 28%, segundo o Ministério da Agricultura. O excedente já tem destino: 540 mil toneladas de milho branco para o Quênia. Sobre o risco de um novo El Niño, leia El Niño forte em 2026/27: o impacto nas lavouras.
Exportações agrícolas: US$ 1,00 bilhão em 2024, ano de seca (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 0,91 bilhão em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 4,1% · no emprego: 54,5% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, agriculture.gov.zm; estatística: ZamStats
Agricultura no Zimbábue: dados de tabaco e trigo
O Zimbábue vendeu o recorde de 353 milhões de quilos de tabaco em 2025, 53% a mais que no ano anterior, e pagou pela primeira vez mais de US$ 1 bilhão aos produtores, segundo a bolsa de leilões TIMB. O tabaco é quase um terço das exportações do país, e a China é o maior comprador. No trigo, o governo anunciou 640 mil toneladas em 2025, a maior colheita desde 1966, para um consumo de cerca de 360 mil. Só que as importações de trigo também bateram recorde, como mostrou a The Africa Report, o que põe em dúvida a autossuficiência proclamada.
Exportações agrícolas: US$ 1,62 bilhão em 2024, dos quais US$ 1,43 bilhão em tabaco (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 1,81 bilhão em 2024 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 9,5% · no emprego: 54,3% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Mecanização e Recursos Hídricos, agric.gov.zw; tabaco: TIMB
Agricultura em Moçambique: dados de exportação de tabaco, caju e macadâmia
Em Moçambique, 73% dos trabalhadores estão no campo, a maioria plantando mandioca e milho para comer. A pauta de exportação é outra. O tabaco lidera, com US$ 258 milhões em 2025, alta de 16%, segundo o banco central citado pelo Club of Mozambique. A castanha de caju quase triplicou em um ano, de US$ 44 milhões para US$ 122 milhões, e a macadâmia chegou a US$ 40 milhões. O feijão bóer vai quase todo para a Índia. Mesmo assim o país importa o dobro do que exporta em alimentos, sobretudo arroz, trigo e óleo.
Exportações agrícolas: US$ 0,97 bilhão em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Importações agrícolas: US$ 2,11 bilhões em 2025 (UN Comtrade, cap. 1–24 do SH)
Agropecuária no PIB: 25,6% · no emprego: 73,0% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, agricultura.gov.mz
Agricultura em Angola: dados de produção, importação de alimentos e café
Angola diz que a agricultura já pesa mais que o petróleo na economia. O ministro de Estado José de Lima Massano afirmou em maio de 2026 que o setor passou de 13,7% do PIB em 2015 para 25,4% em 2025, segundo o MINAGRIF, e o Banco Mundial registra número parecido. A campanha 2024/25 somou 30,5 milhões de toneladas, 13,5 milhões delas de mandioca. O país ainda importa mais da metade da comida que consome, mais de US$ 2,1 bilhões em 2024, e o Brasil é o segundo maior fornecedor de alimentos de consumo, com 23% do mercado, atrás só da União Europeia, segundo o USDA. O café, que antes da guerra civil fazia de Angola um nome de peso no mercado, tenta voltar: foram 10.500 toneladas colhidas e 3.288 exportadas em 2025.
Exportações agrícolas: US$ 84 milhões em 2024 (USDA)
Importações agrícolas: mais de US$ 2,1 bilhões em alimentos em 2024 (USDA)
Agropecuária no PIB: 25,2% · no emprego: 51,9% (Banco Mundial, 2025)
Autoridade agrícola: Ministério da Agricultura e Florestas (MINAGRIF), minagrif.gov.ao
Especial: a influência da China na agricultura africana
A China é hoje o maior parceiro comercial da África, e a distância para o segundo colocado só cresce. Em 2025 o comércio entre os dois somou US$ 348 bilhões, alta de 17,7%, segundo a alfândega chinesa citada pelo governo chinês. A conta é torta: a China vendeu US$ 225 bilhões e comprou US$ 123 bilhões, e o déficit africano beirou US$ 103 bilhões. No primeiro semestre de 2026 o fluxo chegou a US$ 203,5 bilhões, 24% a mais que um ano antes. A agricultura ainda é fatia pequena disso: o comércio agrícola bilateral passou pela primeira vez de 70 bilhões de yuans (cerca de US$ 9,75 bilhões) em 2024, de acordo com o China Daily. Mas é a fatia que Pequim escolheu para mostrar boa vontade.
Tarifa zero. Desde 1º de dezembro de 2024 os 33 países africanos de menor desenvolvimento exportam para a China sem tarifa em 100% das linhas. Em 1º de maio de 2026 o benefício foi estendido a 53 dos 54 países do continente, sem exigir reciprocidade, até abril de 2028. Só ficou de fora Essuatíni, que reconhece Taiwan. O primeiro lote a entrar pela regra nova foram 24 toneladas de maçãs sul-africanas em Shenzhen. O efeito foi imediato: em maio e junho as importações chinesas da África subiram 23,5%, com abacate 130% acima e amendoim descascado multiplicado por 15, segundo o South China Morning Post.
Protocolos, um produto por vez. Tarifa zero não adianta sem licença sanitária, e é aí que a China controla o ritmo. Até junho de 2025 Pequim tinha assinado 22 protocolos de exportação agrícola com 18 países africanos e registrado mais de 2.400 empresas de alimentos do continente, conforme balanço do Ministério das Relações Exteriores chinês. O Quênia foi o primeiro africano a vender abacate fresco para lá, em 2022. O Senegal manda mais de 90% do amendoim que exporta para a China, o Zimbábue vendeu US$ 562 milhões em tabaco aos chineses em 2025 e o café etíope entrou em 2025 com alta de 145% nos cinco primeiros meses do ano. Na África do Sul o protocolo de citros foi ampliado em abril de 2026, mas a carne bovina está barrada desde maio de 2025 por causa da febre aftosa.
Dinheiro, técnicos e sementes. Na cúpula do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) de setembro de 2024, Xi Jinping prometeu 360 bilhões de yuans em três anos, a maior parte em crédito. A fatia agrícola é modesta e bem desenhada: 1 bilhão de yuans em ajuda alimentar de emergência, 100 mil mu (cerca de 6.670 hectares) de áreas-modelo, 500 agrônomos enviados e dez centros de demonstração novos ou reformados, segundo o Plano de Ação de Pequim 2025–2027. Eles se somam a cerca de duas dezenas de centros de tecnologia agrícola que a China já mantém no continente, onde ensina arroz híbrido, mandioca e o cultivo de cogumelos em juncao, um capim que também vira forragem. A próxima cúpula do FOCAC está prevista para 2027, na República do Congo.
A lenda da grilagem. Durante uma década circulou a ideia de que empresas chinesas estavam comprando a África para alimentar a China, com números de até 6 milhões de hectares. A pesquisadora Deborah Bräutigam, da Universidade Johns Hopkins, foi atrás de cada negócio anunciado e achou cerca de 240 mil hectares efetivamente ocupados no fim de 2014; a maior parte dos projetos nunca saiu do papel, relatou a Reuters. Isso não quer dizer que não houve conflito. O projeto de arroz da Wanbao em Xai-Xai, Moçambique, com concessão de 20 mil hectares por 50 anos, começou com denúncias de camponeses expulsos e só depois migrou para um modelo de agricultura por contrato com famílias locais. A correção é de escala, não de inocência.
O lado de baixo da balança. A China também pesa quando fecha a torneira. Em outubro de 2021 passou a exigir inspeção para exportar fertilizantes e tirou do mercado boa parte da ureia e dos fosfatos de que respondia por perto de 30% do comércio mundial, lembrou a Bloomberg. Em março de 2026, com a crise no Estreito de Ormuz, restringiu de novo a venda de DAP e MAP, e o produtor africano, que já usa sete vezes menos adubo que a média mundial, pagou mais caro para comprar do Marrocos e do Oriente Médio. Ao mesmo tempo, as máquinas chinesas avançam: o país exportou 185.539 tratores em 2025, e as vendas de máquinas agrícolas para a África cresceram 41% nos cinco primeiros meses daquele ano. Na prática, o trator que chega hoje a uma cooperativa na Zâmbia ou na Nigéria tem mais chance de ser chinês do que americano ou europeu.
O que vem pela frente para a agricultura africana
O mapa deste guia vai mudar rápido. A população africana deve chegar perto de 2,5 bilhões de pessoas em 2050, e a conta de importação de comida cresce junto. As metas de Kampala para 2035 pedem mais produção por hectare, não mais hectares, e isso passa por adubo, semente e estrada, os três gargalos de sempre. A crise de fertilizantes de 2026 mostrou o tamanho da dependência. Ao mesmo tempo, a tarifa zero chinesa e o comércio dentro do continente abrem mercado para quem conseguir cumprir as exigências sanitárias, e os resultados recentes de Zâmbia, Uganda, Etiópia e Senegal mostram que safra e exportação respondem quando o preço e o clima ajudam.
Para o Brasil, a África é cliente e laboratório. Cliente porque compra frango, açúcar, soja e milho brasileiros, de Angola ao Egito. Laboratório porque o cerrado de Moçambique, a savana da Zâmbia e as terras altas da Etiópia enfrentam os mesmos problemas que o Centro-Oeste resolveu há quarenta anos com calcário, adubo e pesquisa. A geopolítica que liga os dois lados do Atlântico, com a China no centro, está em China, tarifas e Mar Negro redesenham o mapa dos grãos.
Fontes e método. Participação no PIB e no emprego: indicadores NV.AGR.TOTL.ZS e SL.AGR.EMPL.ZS do Banco Mundial (2025; emprego é estimativa modelada da OIT). Comércio agrícola: números nacionais quando existem; nos demais, UN Comtrade, soma dos capítulos 1 a 24 do Sistema Harmonizado, com pescado excluído nos países do Norte e do Oeste e incluído nos do Leste e do Sul. Por isso os valores servem para comparar ordem de grandeza, não para somar. Sites oficiais testados em 29 de setembro de 2026. Dados do continente: ReSAKSS/AKADEMIYA2063, União Africana (CAADP) e FAO.
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