Nenhum alimento sustenta tanta gente quanto o arroz: mais de 3,5 bilhões de pessoas — quase metade da humanidade — têm no grão sua principal fonte de calorias. Em boa parte da Ásia, a palavra para “arroz” e a palavra para “refeição” são a mesma. E, no entanto, o arroz tem uma peculiaridade que o separa do trigo, do milho e da soja: quase não é comercializado internacionalmente. É essa combinação — importância máxima, mercado mínimo — que explica por que o preço do arroz, quando se move, se move de forma tão violenta.
O retrato em números
- Produção: em torno de 520 milhões de toneladas de arroz beneficiado por ano no mundo.
- Concentração: a Ásia responde por cerca de 90% de toda a produção; China e Índia, juntas, por mais da metade.
- Comércio: apenas 10% da produção cruza fronteiras — no trigo, essa proporção passa de 25%; na soja, de 40%.
- Exportadores: a Índia lidera com folga (já respondeu por cerca de 40% do comércio mundial), seguida por Tailândia, Vietnã, Paquistão e Estados Unidos.
- Importadores: Filipinas, Indonésia, Nigéria e boa parte da África Ocidental e do Oriente Médio.
Os números são acompanhados em detalhe pela FAO e pelo IRRI, o instituto internacional de pesquisa do arroz, sediado nas Filipinas.
Por que o mercado é tão pequeno e tão nervoso
A explicação é política antes de ser econômica. Para os governos asiáticos, arroz é estabilidade social: praticamente todos os grandes produtores tratam o grão como assunto de segurança nacional, com estoques públicos, preços administrados e — o ponto decisivo — restrições de exportação acionadas ao primeiro sinal de aperto interno. O resultado é um mercado residual: o mundo comercializa apenas as sobras dos gigantes.
Quando um exportador grande fecha a torneira, não há folga em lugar nenhum. Foi assim na crise de 2007/08, quando proibições em cascata — Índia e Vietnã à frente — triplicaram o preço internacional em meses sem que houvesse quebra de safra relevante. E foi assim de novo em 2023, quando restrições indianas ao arroz não basmati levaram as cotações ao maior nível em 15 anos. No arroz, o pânico é mais contagioso que a seca.
Como se produz: a lavoura mais intensiva em trabalho e água
O arroz irrigado de várzea — o sistema dominante — é uma engenharia milenar: campos nivelados e alagados, mudas transplantadas, duas e até três safras por ano nos deltas tropicais. Os deltas do Mekong (Vietnã), do Irrawaddy (Mianmar) e do Chao Phraya (Tailândia) estão entre as maiores fábricas de comida do planeta. O sistema é produtivo, mas cobra caro em recursos: o arroz consome sozinho algo como um terço da água de irrigação do mundo, e os campos alagados são fonte relevante de metano — o que coloca a cultura no centro do debate climático agrícola.
Técnicas como a irrigação intermitente (molha e seca alternados), o plantio direto semeado e variedades de ciclo curto vêm reduzindo água e emissões sem sacrificar produtividade — a próxima revolução do arroz será de eficiência, não de área.
A Revolução Verde nasceu aqui
Foi no arroz que a humanidade venceu sua corrida mais dramática contra a fome. A variedade IR8, lançada pelo IRRI em 1966 — apelidada de arroz milagroso —, dobrou e triplicou rendimentos da Índia às Filipinas, afastando previsões de fome em massa na Ásia. A produtividade média asiática saltou de cerca de 2 para mais de 4 toneladas por hectare em uma geração. A fronteira atual é qualitativa: arroz biofortificado com zinco e ferro, variedades tolerantes a submersão para os deltas sujeitos a enchentes e híbridos que rompem o teto de produtividade.
Os riscos que pairam sobre o grão
O arroz enfrenta uma tempestade lenta e bem mapeada: os deltas que o produzem estão entre as regiões mais vulneráveis do mundo à elevação do nível do mar e à intrusão salina — o Mekong já convive com sal onde antes havia água doce; os aquíferos do norte da Índia, sobreexplorados pelo arroz irrigado, cedem ano após ano; e o calor noturno crescente reduz rendimento e qualidade do grão, efeito documentado em todo o cinturão tropical. O contexto amplo está no artigo sobre mudanças climáticas e agricultura.
Por que acompanhar
Mesmo quem nunca opera arroz deveria acompanhá-lo: o grão é o termômetro mais sensível da segurança alimentar mundial. Três sinais bastam — a política de exportação da Índia, a monção asiática e o nível dos estoques públicos de China e Índia. Quando esses três apontam na mesma direção errada, a história ensina: o preço não sobe, salta. E leva junto a conta do pão, porque o consumidor que não encontra arroz migra para o trigo.
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