Em 22 de julho de 2026, pela primeira vez desde 2023, nenhum navio entrou nos portos da Grande Odesa. Três dias antes, o graneleiro Golden Leo, carregado de milho, tinha sido atingido por três mísseis ao sair de Chornomorsk; dez tripulantes morreram e o navio afundou uma semana depois. Nove em cada dez armadores suspenderam as escalas, o preço do trigo na bolsa de Paris subiu 7% em um dia e a FAO registrou em agosto o índice de preços de alimentos mais alto desde novembro de 2022. O mundo ganhou, sem pedir, um ensaio do cenário que dá título a este texto. Então vamos à pergunta direta: o que aconteceria se a Ucrânia parasse de exportar alimentos de vez, se o país que os ministros ucranianos dizem alimentar 400 milhões de pessoas simplesmente saísse do mapa do comércio agrícola? A resposta curta é que ninguém passaria fome no Brasil ou nos Estados Unidos, mas o pão ficaria mais caro do Cairo a Jacarta, o óleo de cozinha subiria na Índia, o frango encareceria na Europa, e a conta cairia com mais força exatamente sobre os países que menos podem pagar. A resposta longa, com os números, vem a seguir.
Primeiro, o tamanho do buraco: o que a Ucrânia vende ao mundo
A Ucrânia não é a maior produtora de nada, mas é uma das maiores exportadoras de quase tudo o que planta, porque tem 40 milhões de habitantes e terra para alimentar dez vezes isso. Em 2025 o país colheu 60,8 milhões de toneladas de grãos, sendo 30,7 milhões de milho e 23,3 milhões de trigo, mais 10,2 milhões de toneladas de girassol, segundo o serviço de estatística citado pela APK-Inform. Na safra comercial 2025/26 exportou 37,5 milhões de toneladas de grãos: 21,3 milhões de milho, 14,1 milhões de trigo e 1,5 milhão de cevada, conforme o Ministério da Agricultura. Somando óleos e farelos, a conta chega a US$ 18 bilhões por ano. É o que sobra para o resto do mundo depois que a Ucrânia come, e é isso que desapareceria.
- Óleo de girassol: a Ucrânia é a maior exportadora do mundo, com 4,4 milhões de toneladas previstas pelo USDA para 2025/26, um terço do comércio global, à frente da Rússia. A União Europeia compra 92% do óleo de girassol que importa de lá.
- Milho: quarta maior exportadora, atrás de Estados Unidos, Brasil e Argentina, com 12,6% do comércio mundial em 2024. Turquia, Itália, Espanha, Egito e China são os grandes compradores.
- Trigo: em torno de 6% do comércio mundial em 2025/26, contra 8,5% antes da guerra. Egito, Argélia e Indonésia lideram as compras; o trigo ucraniano é um quarto do que o Egito importa.
- Farelo de girassol e colza: maior exportadora mundial de farelo de girassol, que virou 72% do que a China importa do produto, e principal fornecedora de colza para o biodiesel europeu.
Descrevemos o país em detalhe em Ucrânia, o celeiro do Leste. O que importa aqui é a proporção: antes de 2022, Rússia e Ucrânia juntas respondiam por 28% do trigo, 15% do milho e 66% do óleo de girassol comercializados no planeta, segundo o instituto alemão IAMO citado pela Intereconomics, e 12% de todas as calorias que cruzam fronteiras.
2022 foi o teste real, e o mundo já sabe o que acontece

Não é preciso imaginar muito, porque o cenário aconteceu por cinco meses. Entre 24 de fevereiro e o fim de julho de 2022 os portos do Mar Negro ficaram fechados e a Ucrânia praticamente parou de exportar por mar, que era o caminho de 90% do seu trigo. O resultado está nos gráficos. O índice de preços de alimentos da FAO saltou para 159,7 pontos em março de 2022, o maior valor da série iniciada em 1990, com os óleos vegetais subindo 23% e os cereais 17% em um único mês, segundo a FAO. O trigo em Chicago bateu US$ 13,63 por bushel em 8 de março, acima do recorde de 2008, conforme registro da Universidade de Illinois. O Banco Mundial calculou alta de 40% no trigo no ano.
Quem sentiu primeiro foram os compradores cativos. A FAO contou 50 países que importavam pelo menos 30% do trigo da Rússia e da Ucrânia, e 26 que dependiam delas para mais da metade. O Egito, maior importador de trigo do mundo, comprava 82% dos dois; o Líbano, 68%; a Tunísia, 52%; o Iêmen, 49%; a Somália, quase tudo. Na Somália, a inflação de cereais chegou a 70% em junho de 2022, de acordo com o FMI. O Programa Mundial de Alimentos, que comprava metade do seu trigo na Ucrânia, viu o custo das operações subir US$ 29 milhões por mês. E o número mais duro: o relatório global sobre crises alimentares contou 258 milhões de pessoas em insegurança alimentar aguda em 2022, contra 193 milhões no ano anterior, segundo a FAO. A guerra não foi a única causa, mas foi a maior.
A Europa sentiu de outro jeito. Sem o milho e o farelo de girassol ucranianos, que iam para ração, os preços agrícolas na União Europeia subiram 45% nos cereais e 43% nos ovos em 2022; na França os ovos encareceram 76%, segundo o Eurostat. Frango e ovo são, no fim das contas, milho transformado. Contamos essa história em Guerra na Ucrânia e o comércio de grãos: o que mudou de forma permanente.
O que os modelos dizem sobre uma saída total
Economistas simularam a pergunta deste texto. O relatório conjunto OCDE-FAO Agricultural Outlook 2022-2031 calculou que, se a Ucrânia perdesse por completo a capacidade de exportar, o preço de equilíbrio do trigo ficaria 19% acima do nível pré-guerra, e 34% se a Rússia também cortasse metade das suas vendas. Um estudo publicado na Communications Earth & Environment em 2024 estimou que a cooperação internacional de 2022, com o corredor de grãos e as rotas terrestres europeias, evitou 13 pontos percentuais de alta no trigo, e que o pior cenário, com a Ucrânia bloqueada e quebras de safra simultâneas em outros celeiros, levaria o trigo a 90% acima da média de 2000 a 2020. Outro trabalho, na revista da Associação Americana de Economia Agrícola, colocou a perda de bem-estar global entre US$ 5 bilhões e US$ 20 bilhões por ano, dependendo de quanto das exportações consegue sair por terra.
Esses números parecem modestos ao lado do pânico de 2022, e há uma razão: o mercado se adapta. Trigo tem substituto (arroz, milho, outro trigo), óleo de girassol tem substituto (palma, soja, canola) e o preço alto puxa área plantada em outro lugar na safra seguinte. O problema é a velocidade e quem paga. Uma família na Europa gasta em torno de 15% da renda com comida; no Egito, na Nigéria ou em Bangladesh, a fatia vai de um terço a mais da metade. Uma alta de 20% no trigo é um incômodo em Berlim e uma crise política no Cairo. O Egito subsidia o pão de 70 milhões de pessoas, e cada dólar a mais na tonelada importada sai do orçamento público.
Quem ocuparia o espaço

A saída da Ucrânia não deixaria o mundo sem grão, deixaria o mundo com outro fornecedor, e o mapa de quem ganha já está desenhado desde 2022. No trigo, a Rússia, que pulou de 39 milhões de toneladas exportadas em 2020/21 para o recorde de 55 milhões em 2023/24 e virou dona de um quinto do mercado mundial, história que contamos em Rússia, a superpotência do trigo. Austrália, Canadá, União Europeia e Argentina dividem o resto. No milho, o beneficiado óbvio é o Brasil: em 2023, com a Ucrânia em guerra, o país exportou 55,9 milhões de toneladas, recorde, virou o maior exportador do mundo e passou a responder por 85% do milho importado pela China no fim daquele ano, segundo o USDA. Antes da guerra, a China comprava um terço do milho ucraniano. Os Estados Unidos e a Argentina completam o trio.
No óleo de girassol a substituição é mais difícil, porque só Rússia, Ucrânia e Argentina produzem em escala. A Argentina já aproveitou: em 2025/26 vendeu 530 mil toneladas de óleo à Índia, maior compradora do mundo, e pela primeira vez superou a Ucrânia naquele mercado, conforme a UkrAgroConsult. Sem a Ucrânia, a Índia trocaria girassol por óleo de palma da Indonésia e da Malásia e por óleo de soja da Argentina e do Brasil, com o preço de todos eles subindo junto. Descrevemos esse mercado em Óleo de girassol: como uma guerra redesenhou o mercado mundial. O que não tem substituto rápido é o farelo de girassol na ração europeia e chinesa, e a colza que abastece os 70% a 80% do biodiesel alemão feitos com esse óleo. A Europa teria de escolher entre o tanque do carro e o cocho.
Os países que sentiriam primeiro
Se a torneira fechasse hoje, com os fluxos de 2025/26, a lista dos atingidos seria esta, pela ordem dos volumes registrados pela Associação Ucraniana de Grãos:
- Turquia (7,9 milhões de toneladas por ano, sobretudo milho e girassol para esmagar): é o maior cliente e também a maior moageira de trigo do mundo, que reexporta farinha para a África e o Oriente Médio. Sem o grão ucraniano, a farinha turca encarece de Bagdá a Mogadíscio.
- Egito (4,9 milhões, sendo 3,9 milhões de trigo): já compra dois terços do trigo da Rússia; ficaria dependente de um único fornecedor, o que nenhum governo do Cairo aceita de bom grado.
- Itália e Espanha (4,2 e 1,9 milhão, quase tudo milho): são a base da produção de suínos, aves e do parmesão. O milho viria do Brasil e dos Estados Unidos, com frete mais caro e o dólar no meio.
- Argélia, Indonésia, Bangladesh e Paquistão: trigo para pão e macarrão, comprado por governos, com orçamento apertado e população que sente cada centavo.
- Índia: 16 milhões de toneladas de óleo vegetal importadas por ano, 70% do que consome; o girassol ucraniano é a fatia que sobrou depois que a Rússia tomou o primeiro lugar.
- China: milho, cevada e o farelo de girassol de que passou a depender; trocaria por Brasil e Austrália, como já vem fazendo.
A logística que mantém a Ucrânia no mapa

O motivo de a Ucrânia ainda exportar 37 milhões de toneladas de grãos com um país em guerra, 20% das terras agrícolas ocupadas e cerca de 2 milhões de hectares potencialmente minados, segundo o ministro Vitaliy Koval, é uma engenharia logística montada às pressas em 2022 e refinada desde então. Primeiro veio a Iniciativa de Grãos do Mar Negro, negociada pela ONU e pela Turquia, que entre agosto de 2022 e julho de 2023 tirou 32,9 milhões de toneladas de Odesa em 1.004 viagens, com a China como maior destino, conforme o balanço da ONU. Quando a Rússia abandonou o acordo, a Ucrânia abriu por conta própria um corredor costeiro que, até julho de 2026, já tinha movimentado 124 milhões de toneladas de grãos, segundo o Maritime Executive. Em paralelo, as “rotas de solidariedade” da União Europeia, por trem, caminhão e pelos portos do Danúbio em Izmail e Reni, escoaram 95 milhões de toneladas de grãos e oleaginosas desde 2022, de acordo com a Comissão Europeia. Hoje 80% sai por mar e 20% por terra.

Esse arranjo tem um custo político que a Europa conhece bem. Quando o grão ucraniano entrou por terra em 2023, derrubou o preço na Polônia, na Hungria e na Eslováquia, que fecharam a fronteira ao produto mesmo depois de Bruxelas mandar reabrir. O acesso livre ao mercado europeu acabou em junho de 2025 e o acordo que o substituiu, em vigor desde outubro, limita o trigo ucraniano a 1,3 milhão de toneladas por ano, contra os 6,4 milhões vendidos à União Europeia em 2024. Ou seja: o mesmo vizinho que garante a saída de emergência não quer o grão em casa. Tratamos dos gargalos dessa e de outras rotas em Os gargalos do comércio agrícola: canais, estreitos e o preço do frete.
Agosto de 2026: o cenário chegou mais perto

O verão de 2026 mostrou como o corredor é frágil. Depois do ataque ao Golden Leo, em 19 de julho, e das semanas seguintes com três ou quatro navios por dia em vez de dezenas, o governo ucraniano cortou a previsão de exportação da safra 2026/27 de 43 para 38 a 40 milhões de toneladas e admitiu que mais de 9 milhões de toneladas podem ficar sem destino nos silos em outubro, segundo o The Pig Site. A Oxford Economics estima perda de 1,8% do PIB ucraniano em 2026 e trigo exportado caindo para 8,3 milhões de toneladas no pior caso. A Ucrânia respondeu em 12 de agosto atingindo Novorossiysk, o maior porto de grãos da Rússia, e parando mais de 90% da capacidade russa de embarque no Mar Negro e no Mar de Azov por semanas, de acordo com o Moscow Times. Pela primeira vez os dois maiores fornecedores do Mar Negro travaram ao mesmo tempo, e o índice da FAO de agosto, em 133,3 pontos, com óleos vegetais no maior nível desde junho de 2022, é o retrato disso, como relatou a Bloomberg. O USDA já reduziu a estimativa do comércio mundial de trigo em 2026/27 para 212,7 milhões de toneladas por causa do “conflito no Mar de Azov e no Mar Negro”.
Há um detalhe que o mercado ainda não precificou por completo: a terra. Cerca de 40% da produção agrícola ucraniana vinha de regiões diretamente afetadas pela guerra, 600 mil hectares perderam irrigação com a destruição da barragem de Kakhovka em 2023 e a Rússia teria levado até 15 milhões de toneladas de grãos das áreas ocupadas, segundo levantamento do CSIS. Cada hectare minado, e a desminagem avança a 35 mil hectares por ano, é um hectare que o mundo já perdeu sem que a Ucrânia tenha parado de exportar.
Sobre os “400 milhões de pessoas”
O número que abre quase todo discurso sobre o tema veio do então ministro Roman Leshchenko, em fevereiro de 2022: a produção ucraniana “equivale à alimentação de 400 milhões de pessoas”, vinte anos depois de alimentar 40 milhões, com meta de um bilhão em 2030, segundo registro da Tridge. Zelensky, o Programa Mundial de Alimentos e diplomatas repetiram desde então. A conta nunca foi publicada, e vale ler com cuidado: a Ucrânia exporta sobretudo milho para ração e óleo para fritura, não pão pronto. O que ela alimenta são calorias comercializadas, e 12% delas, com a Rússia, é um número tão grande que dispensa arredondamento. Os quatro anos de guerra provaram que o mundo não passa fome sem a Ucrânia. Provaram também que fica mais caro, mais instável e mais dependente da Rússia, o que, para metade dos governos do Oriente Médio e do Norte da África, é o pior dos dois resultados.
E o Brasil? Ganharia mercado de milho, como em 2023, venderia mais soja e óleo, e pagaria mais caro pelo fertilizante, porque uma escalada no Mar Negro nunca vem sozinha, como mostramos em Quem fabrica os fertilizantes do mundo e quem depende deles. O produtor brasileiro que acompanha a cotação do milho em Chicago já sabe: quando um navio afunda em Odesa, o preço em Sorriso muda no mesmo dia. Para entender como a geopolítica manda no preço, vale ler China, tarifas e Mar Negro redesenham o mapa dos grãos.
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