Há uma reviravolta na agricultura mundial das últimas décadas que costuma passar despercebida: a Rússia, que nos anos 1990 importava trigo para alimentar sua população, tornou-se o maior exportador do grão no planeta. Desde meados da década de 2010, o país lidera o ranking mundial com folga, chegando a responder por cerca de um quarto de todo o trigo comercializado internacionalmente.
Entender como isso aconteceu — e o que sustenta esse domínio — é entender uma das forças que mais definem o preço do pão no mundo.
Da escassez soviética ao recorde de safra
No fim da era soviética, a agricultura russa era sinônimo de ineficiência: fazendas coletivas descapitalizadas, perdas enormes de colheita e dependência de importações. A virada veio em etapas. A privatização das terras nos anos 1990 e 2000 criou grandes empresas agrícolas; a desvalorização do rublo tornou o grão russo barato em dólar; e o Estado passou a tratar a agricultura como setor estratégico, com crédito subsidiado e metas de autossuficiência.
O resultado apareceu nos números. A produção de trigo, que rondava 35 milhões de toneladas no início dos anos 2000, dobrou e seguiu crescendo até o recorde histórico de mais de 100 milhões de toneladas na safra 2022/23 — colheita total de grãos próxima de 155 milhões de toneladas, segundo dados acompanhados pelo USDA/FAS.
A geografia que produz trigo barato
O coração triticultor russo fica no sul do país: as regiões de Krasnodar, Rostov e Stavropol, além da faixa de terras pretas — os mesmos chernozems férteis que fazem a fama da vizinha Ucrânia. Ali, o trigo de inverno rende bem com custo baixo de insumos, e a distância até os portos do Mar Negro e do Mar de Azov é curta.
Essa combinação define a competitividade russa: solo fértil, escala continental, frete interno curto até o porto e um câmbio que historicamente favorece o exportador. Em concorrências internacionais, como as compras do Egito, o trigo russo costuma chegar com o preço mais baixo do lote — e preço, nesse mercado, decide quase tudo.
Os números do domínio
- Exportação: embarques anuais na faixa de 40 a 55 milhões de toneladas de trigo nas melhores temporadas, o maior volume do mundo.
- Participação: algo entre 20% e 25% do comércio mundial do grão em anos recentes.
- Área agrícola: cerca de 80 milhões de hectares semeados com grãos e oleaginosas, em um país com fronteira agrícola ainda subaproveitada.
- Outros produtos: liderança também em cevada, posição forte em girassol e crescimento acelerado em leguminosas e milho.
Quem depende do trigo russo
A lista de clientes é um mapa da segurança alimentar do mundo em desenvolvimento. O Egito — maior importador mundial de trigo — tem na Rússia seu fornecedor dominante. Turquia, Irã, Argélia, Arábia Saudita, Bangladesh e boa parte da África Subsaariana completam o quadro. São países populosos, com programas públicos de pão subsidiado e pouca capacidade de pagar prêmios por origem alternativa.
Essa dependência dá à Rússia algo que vai além de receita de exportação: dá influência. O grão entrou de vez no vocabulário diplomático do país, seja em acordos bilaterais com governos africanos, seja no uso de cotas e impostos de exportação para controlar o preço interno — instrumentos que Moscou aciona com frequência e que mexem imediatamente com as cotações internacionais.
O trigo atravessou as sanções
Depois da invasão da Ucrânia em 2022, a Rússia sofreu sanções amplas — mas alimentos e fertilizantes ficaram formalmente de fora, justamente para não provocar uma crise alimentar global. Na prática, o comércio enfrentou atritos: bancos ocidentais evitando transações, seguradoras cobrando mais, armadores reduzindo escalas. O país respondeu criando uma logística paralela, com frota própria crescente, pagamento em moedas alternativas e novos terminais portuários.
O resultado surpreendeu analistas: em vez de encolher, a exportação russa de trigo bateu recordes nos anos seguintes à invasão. O contexto completo dessa reconfiguração está no artigo sobre a guerra na Ucrânia e o comércio de grãos.
Os limites do modelo
O domínio russo tem vulnerabilidades conhecidas. O clima é a maior delas: geadas de inverno sem cobertura de neve e secas de primavera no sul produzem oscilações fortes de safra — e, como o país é o maior exportador, cada estiagem russa vira alta de preço no mundo inteiro. Há ainda a dependência de tecnologia importada, de sementes a peças de máquinas, que as sanções tornaram mais cara e incerta, e o risco regulatório interno: impostos de exportação flutuantes reduzem a margem do produtor local e desestimulam investimento de longo prazo.
Organismos como a FAO e o Conselho Internacional de Grãos acompanham essas variáveis de perto, porque poucas engrenagens do sistema alimentar global têm tanto efeito multiplicador.
O que observar em qualquer época do ano
Para quem opera ou estuda o mercado de trigo, a Rússia exige monitoramento contínuo: condição da safra de inverno entre novembro e março, clima de enchimento de grãos entre maio e junho, ritmo de embarques nos portos do Mar Negro e o nível do imposto de exportação. Esses quatro sinais, combinados, explicam boa parte dos movimentos do trigo em qualquer bolsa do mundo — e, por tabela, do preço da farinha em qualquer padaria.
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