Bovaer: a polêmica do aditivo contra o metano que dividiu a Europa, mitos e verdades

Uma colher de sopa de pó branco por vaca, por dia. É essa a dose do Bovaer, o aditivo que promete cortar cerca de 30% do metano arrotado pelo gado de leite e que, em dois anos, saiu das páginas de sustentabilidade das grandes empresas de laticínios para virar boicote no Reino Unido, lei na Dinamarca, revolta de fazendeiros, pausa na Noruega e reavaliação na Agência Europeia de Segurança Alimentar. No meio do caminho, apareceram vacas caídas no estábulo, vídeos virais, uma montagem falsa com um apresentador de TV e até Bill Gates, que não tem nada a ver com a história. Fomos atrás dos estudos, dos números da fabricante, das reportagens da imprensa europeia e de um vídeo que circula no Facebook para separar o que se sabe do que se repete.

A resposta curta, em outubro de 2026, é desconfortável para os dois lados. Não há prova de que o Bovaer contamine o leite ou faça mal a quem bebe. Mas também não dá mais para tratar como invenção de internet os relatos de centenas de fazendeiros dinamarqueses que viram as vacas comerem menos, produzirem menos leite e adoecerem depois que o produto entrou no cocho. A causa ainda não foi provada, e a ciência ainda não fechou a conta.

Bovaer: vacas holandesas comendo ração total misturada no cocho de um estábulo, onde o aditivo é adicionado
É na ração total misturada, servida no cocho, que o Bovaer entra na dieta das vacas. Foto: Tractorboy60 / Wikimedia Commons (domínio público).

O que é o Bovaer?

O Bovaer é o nome comercial do 3-nitrooxipropanol, uma molécula pequena conhecida pela sigla 3-NOP. Ele é vendido como pó, em uma formulação com sílica e propilenoglicol, e entra na ração total misturada das vacas confinadas ou semiconfinadas. Não é remédio, não é hormônio e não é vacina. Na classificação europeia, é um aditivo zootécnico da categoria “substâncias que afetam favoravelmente o ambiente”, a mesma lógica usada para enzimas que reduzem a perda de fósforo no esterco.

A promessa é simples de explicar: menos metano sai pela boca do animal. O metano entérico, aquele que vem da fermentação no rúmen e sai quase todo no arroto, não pelo outro lado, é o maior item da conta de gases de efeito estufa de uma fazenda de leite. E o metano, embora dure pouco na atmosfera, aquece cerca de 80 vezes mais que o CO2 num horizonte de 20 anos. Daí o interesse de governos e de compradores de leite que assumiram metas climáticas.

A aprovação veio rápido. O Brasil e o Chile foram os primeiros países a dar autorização plena de mercado, em setembro de 2021. A União Europeia liberou o uso em vacas leiteiras e de reprodução em abril de 2022, pelo Regulamento de Execução (UE) 2022/565, depois de um parecer científico da EFSA publicado em novembro de 2021. Nos Estados Unidos, a FDA concluiu a análise em maio de 2024. Segundo a fabricante, o produto está aprovado em cerca de 70 países.

Como funciona o Bovaer?

Dentro do rúmen vivem microrganismos chamados arqueias metanogênicas. Eles fazem uma faxina útil: pegam o hidrogênio que sobra da fermentação das fibras e o combinam com gás carbônico, e o produto final é o metano. A última etapa dessa linha de montagem depende de uma enzima, a metil-coenzima M redutase, ou MCR. O 3-NOP tem formato parecido com a peça que essa enzima costuma encaixar, entra no lugar dela e a desliga por algum tempo. O mecanismo foi descrito em detalhe num artigo de 2016 na revista PNAS (Duin e colegas), assinado também por pesquisadores da própria fabricante.

Bovaer: infográfico de como o aditivo 3-NOP age no rúmen da vaca, bloqueando a enzima MCR e reduzindo o metano
Do cocho ao arroto: onde o Bovaer interfere e o que acontece com a molécula. Infográfico: Farmfor.

Duas consequências importam para a polêmica. A primeira: o 3-NOP se decompõe rápido no rúmen, em nitrato, nitrito e 1,3-propanodiol, compostos que já aparecem naturalmente ali. A segunda é menos comentada. Se o metano não é formado, o hidrogênio que ele levaria embora fica sobrando. Parte sai como gás, parte é desviada para outras rotas de fermentação. É justamente esse hidrogênio extra que está no centro da principal hipótese científica para os problemas na Dinamarca, como veremos adiante.

A dose usada na Europa é de 60 miligramas de 3-NOP por quilo de matéria seca da dieta. Nos Estados Unidos, a Elanco traduz isso para algo próximo de uma colher de sopa do produto por vaca em lactação por dia. O efeito dura enquanto o animal come: sem o aditivo no cocho, a produção de metano volta ao normal em pouco tempo. Por isso ele funciona bem em confinamento e mal no pasto, onde não há como garantir a ingestão diária.

Bovaer: vagão misturador distribuindo ração total no corredor de alimentação de um estábulo de vacas leiteiras
O aditivo é dosado no vagão misturador junto com silagem, concentrado e minerais. Foto: Trioliet / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Quem criou o Bovaer?

O Bovaer nasceu na holandesa DSM, uma antiga estatal de mineração de carvão que virou gigante de ciências da vida. Em 2007, a empresa lançou um programa interno para buscar soluções climáticas, e um pequeno grupo de pesquisa recebeu a tarefa de reduzir o metano das vacas. Quem liderou o trabalho foi o pesquisador alemão Maik Kindermann, chefe do programa batizado de Clean Cow. Em entrevista ao Feedinfo, ele contou que a molécula foi identificada por volta de 2010. Em agosto de 2026, numa reportagem do LandbrugsAvisen, jornal agrícola dinamarquês, Kindermann admitiu que, quando começou, nem sabia que vaca soltava metano, e lembrou que ouviu o conselho de ficar longe do assunto.

Foram mais de dez anos e dezenas de estudos publicados antes da primeira aprovação. Em 2023, a DSM se fundiu com a suíça Firmenich, fabricante de aromas e fragrâncias, e passou a se chamar dsm-firmenich, com sede em Kaiseraugst, na Suíça, e em Maastricht, na Holanda.

Bovaer: prédio da dsm-firmenich em Maastricht, na Holanda, empresa que criou e fabrica o aditivo
Escritório da dsm-firmenich em Maastricht. A empresa nasceu da fusão da DSM com a Firmenich em 2023. Foto: Kleon3 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Quem vende o Bovaer e quanto ele custa?

A dona da patente e fabricante é a dsm-firmenich, que vende o produto diretamente na maior parte do mundo, inclusive no Brasil. Nos Estados Unidos, no Canadá e no México, quem comercializa é a Elanco, por licença. Na Europa, o produto chega ao produtor misturado em rações e núcleos de fábricas de ração e cooperativas, e grandes laticínios, como a Arla, entraram como parceiros de testes porque têm metas de redução de emissões nas próprias cadeias.

O negócio virou estratégico a ponto de sobreviver a uma reestruturação. Em fevereiro de 2026, a dsm-firmenich fechou a venda da divisão de nutrição animal para o fundo CVC, por cerca de 2,2 bilhões de euros, mas ficou com o Bovaer, transferido para a área de Sabor, Textura e Saúde. No resultado do primeiro semestre de 2026, o aditivo respondeu por cerca de um ponto percentual do crescimento dessa área no segundo trimestre, segundo o Food Ingredients First. A empresa não divulga o faturamento do produto. A primeira fábrica em grande escala está sendo montada em Dalry, na Escócia, onde a DSM já tinha uma unidade industrial.

Bovaer: fábrica da DSM em Dalry, na Escócia, onde a dsm-firmenich monta a primeira unidade em grande escala do aditivo
Complexo industrial da DSM em Dalry, North Ayrshire, na Escócia. Foto: Rosser1954 Roger Griffith / Wikimedia Commons (domínio público).

O preço é o calcanhar de aquiles. Em 2022, a própria fabricante falava em cerca de 1 centavo de euro por litro de leite, algo entre US$ 93 e US$ 105 por vaca por ano. No Brasil, a estimativa repassada pela empresa ao AgriBiz em 2023 era de R$ 0,06 a R$ 0,08 por litro de leite e de R$ 1,50 a R$ 2,00 por cabeça por dia no gado de corte. O problema é que o aditivo não aumenta a produção. Quem paga é o produtor, e o benefício vai para o clima e para a meta de emissões do laticínio. Sem subsídio, prêmio no preço ou crédito de carbono, a conta não fecha. Foi para resolver isso que a Dinamarca decidiu tornar o uso obrigatório.

O que dizem os estudos sobre o Bovaer?

Sobre a eficácia, há poucas dúvidas sérias. Uma meta-análise liderada por Ermias Kebreab, da Universidade da Califórnia em Davis, publicada no Journal of Dairy Science em 2023, reuniu 14 experimentos com vacas leiteiras e encontrou queda média de 32,7% no metano produzido por dia. Uma revisão de 2025 na Frontiers in Animal Science chegou a 26,4% em vacas de leite e 25,9% em gado de corte na dose recomendada. Uma meta-análise da Penn State registrou 28%. No Brasil, um ensaio da Unesp com bovinos de corte em confinamento chegou a 55% de redução, segundo a fabricante. A eficácia cai em dietas ricas em fibra e silagem de capim e sobe em dietas com muito milho.

Sobre a saúde do animal, a literatura publicada até 2025 mostrava efeitos discretos. Em alguns ensaios, as vacas comeram de 2% a 3% menos; em outros, a produção de leite não mudou. Nenhum estudo controlado tinha descrito o quadro relatado depois na Dinamarca, com febre, diarreia generalizada e animais caídos. “O padrão de doença descrito na imprensa, com febre, diarreia e, em alguns casos, vacas mortas, nunca foi observado nos nossos estudos extensos”, disse ao Undark Charlotte Lauridsen, chefe do Departamento de Ciência Animal e Veterinária da Universidade de Aarhus.

Sobre o consumidor, o parecer da EFSA de 2021 concluiu que o 3-NOP não representa risco na dose máxima autorizada, porque a molécula não chega intacta ao leite e à carne. O que pode chegar ao leite, no máximo em traços, é um metabólito chamado ácido 3-nitrooxipropiônico, o NOPA, que não se mostrou genotóxico nos testes apresentados. A agência britânica FSA chegou à mesma conclusão em avaliação própria, concluída em março de 2023, e informou que nos testes analisados não foi detectado NOPA no leite. A vigilância sanitária dinamarquesa admite que ele pode aparecer em concentração baixa, sem que isso mude a avaliação de segurança. O Science Media Centre britânico reuniu a reação de especialistas às postagens virais. O parecer europeu deixou dois pontos registrados. A genotoxicidade do 3-NOP puro “não foi totalmente esclarecida”, embora a exposição sistêmica dos animais seja improvável, e o pó concentrado tem classificação de perigo para quem o manuseia na fábrica ou na fazenda, o que exige equipamento de proteção. É daí que vem boa parte dos alertas que circulam nas redes, como mostraremos a seguir.

Por que o Bovaer virou polêmica no Reino Unido?

Até novembro de 2024, quase ninguém fora do setor tinha ouvido falar do Bovaer. Isso mudou quando a Arla Foods, cooperativa dinamarquesa e sueca dona da manteiga Lurpak, anunciou um teste de 90 dias em cerca de 30 fazendas britânicas, em parceria com Tesco, Aldi e Morrisons. Em poucas horas, as redes sociais encheram de pedidos de boicote e de afirmações de que o produto causava câncer, infertilidade e “veneno no leite”.

Bovaer: embalagem de manteiga Lurpak, da Arla, marca que foi alvo de boicote no Reino Unido por causa do aditivo
A Lurpak, da Arla, virou o alvo preferido do boicote britânico em 2024. Foto: Charles01 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

A onda ganhou peso político quando Rupert Lowe, então deputado do Reform UK, aderiu à campanha. A Arla demorou a responder e, em 28 de novembro, disse que as alegações eram “completamente falsas”. A FSA veio a público dizer que o leite de vacas tratadas é seguro. Os checadores de fatos encontraram pelo menos duas peças fabricadas. Uma postagem atribuída ao apresentador Gregg Wallace, prometendo “descobrir a verdade” sobre o Bovaer, era uma montagem, segundo o Full Fact. E a ideia de que Bill Gates estaria por trás do aditivo também era falsa: a fundação dele não tem participação na dsm-firmenich, e a confusão provavelmente veio do investimento de Gates na Rumin8, uma startup australiana concorrente. Na Austrália, a agência AAP concluiu que não há nenhuma evidência de que o Bovaer contamine o leite e cause câncer ou infertilidade.

Bovaer: retrato oficial do deputado britânico Rupert Lowe, que apoiou o boicote ao aditivo em 2024
Rupert Lowe, então deputado do Reform UK, aderiu à campanha contra o Bovaer. Foto: ©House of Commons / Laurie Noble / Wikimedia Commons (CC BY 3.0).

O boicote fez barulho, mas, segundo uma análise da revista The Grocer, não chegou a derrubar as vendas da Arla. O estrago foi de outro tipo: o termo “Bovaer” passou a funcionar como senha de um movimento mais amplo contra políticas climáticas no campo. A Arla encerrou o teste britânico no fim de 2025 e, segundo o FarmingUK, ainda avalia os resultados antes de decidir se amplia o uso.

O que aconteceu com as vacas na Dinamarca?

Se no Reino Unido a briga era de internet, na Dinamarca ela foi parar dentro do estábulo. O país foi o primeiro do mundo a tornar obrigatória a redução de metano no rebanho leiteiro. Pela regra, as fazendas convencionais com mais de 50 vacas precisam usar Bovaer por pelo menos 80 dias por ano ou adotar uma dieta rica em gordura, alternativa que poucos escolheram. As propriedades orgânicas ficaram de fora. A maioria escolheu o aditivo e começou a misturá-lo no cocho em 1º de outubro de 2025. Segundo a BBC, cerca de 1.400 das 2.000 fazendas de leite do país passaram a usar o produto.

Bovaer: fachada do Folketinget, o Parlamento da Dinamarca, país que tornou obrigatório o aditivo nas fazendas de leite
O Folketinget, em Copenhague. A Dinamarca foi o primeiro país a exigir a redução de metano no rebanho leiteiro. Foto: Jebulon / Wikimedia Commons (CC0).

Em poucas semanas, começaram os relatos. “Não é normal um rebanho inteiro de mil vacas ter diarreia, todas elas”, disse ao Undark o produtor Kent Davidsen, da Jutlândia, que contou ter perdido quase três quilos de leite por vaca em três dias e dez animais em um mês. “Todos alimentam de jeito muito diferente e todos têm os mesmos problemas. A única coisa em comum é que começaram a dar Bovaer”, resumiu Kjartan Poulsen, presidente da associação dos produtores de leite. A emissora TV 2 mostrou fazendeiros que pararam de usar o aditivo por conta própria.

Os números da SEGES Innovation, centro de pesquisa ligado ao setor, deram escala ao problema. Das cerca de 1.640 fazendas obrigadas a usar o produto, 644 responderam a um questionário até 17 de novembro de 2025: 434 relataram queda na produção de leite, e 410, distúrbios digestivos ou metabólicos. Em 5 de novembro, a Fødevarestyrelsen, a vigilância sanitária dinamarquesa, autorizou quem visse animais doentes a suspender o uso. Na Noruega, a cooperativa TINE pausou o uso nas cerca de 70 fazendas que tinham adotado o aditivo, por precaução, mesmo sem nenhum caso registrado no país.

A fabricante reagiu dizendo que “não há absolutamente nenhuma evidência de que o Bovaer seja a causa de qualquer problema” e lembrou que cerca de 400 fazendas dinamarquesas tinham usado o produto nos nove meses anteriores sem queixas. A Elanco informou não ter visto nada parecido em mais de 150 mil vacas americanas. Jan Dijkstra, da Universidade de Wageningen, na Holanda, um dos nomes mais respeitados em nutrição de ruminantes, resumiu a situação: “É um mistério”.

A hipótese do enxofre

A explicação mais estudada até agora veio da própria SEGES. Analisando 200 rebanhos que não mudaram a dieta ao começar o Bovaer, os técnicos viram que as fazendas com problemas tinham, em média, mais enxofre na ração: 2,62 contra 2,48 gramas por quilo de matéria seca. A origem principal era o farelo e a torta de canola, muito usados na Dinamarca como proteína. A hipótese, descrita pelo Agriland, é que o hidrogênio que sobra quando o Bovaer bloqueia o metano se combina com o enxofre e forma gás sulfídrico (H2S), que é tóxico. A SEGES recomendou que quem usa canola como única fonte de proteína esperasse até o outono de 2026 para voltar ao aditivo. A própria entidade, porém, avisou que os dados mostram associação, não causa. Outro fator que se repetia nos relatos era a troca anual de silagem de milho, que coincidiu com a entrada do Bovaer em muitas fazendas.

O relatório de Aarhus e a reação dos produtores

Em 1º de maio de 2026, a Universidade de Aarhus publicou o relatório encomendado pelo governo. Os pesquisadores visitaram 73 rebanhos que usaram o Bovaer em 2025 e cruzaram dados de produção, doença e mortalidade. A conclusão: “Não vemos nenhuma marca clara do Bovaer, no conjunto, sobre produção, doença ou mortalidade nos dados que analisamos”. A dsm-firmenich transformou o resultado em comunicado de vitória.

O relatório, porém, é mais cauteloso do que o comunicado. Os autores registraram que o período analisado foi curto, cerca de três meses, que os dados eram retrospectivos e não de um ensaio controlado, que o outono é a época em que a produção de leite já cai naturalmente e que vacas comendo menos nem sempre recebem remédio com receita, o que as deixa fora dos registros oficiais. “A ausência de uma marca clara no conjunto dos dados não exclui que alguns rebanhos possam ter tido problemas”, escreveram. A associação dos produtores de leite, a LDM, rejeitou o relatório por considerar os rebanhos estudados pouco representativos.

A política se mexeu aos poucos. Em dezembro de 2025, o então ministro da Agricultura, Jacob Jensen, permitiu adiar o uso para o outono de 2026. O novo ministro da Natureza e do Bem-Estar Animal, o social-democrata Christian Rabjerg, manteve a obrigatoriedade, segundo o LandbrugsAvisen, mas, a partir de 1º de outubro de 2026, ampliou a dispensa para quem teve problemas no ano anterior, informou a DR. Ao mesmo tempo, Aarhus iniciou um projeto de 2026 a 2028, pago pelo governo, que vai acompanhar rebanhos em tempo real e fazer um ensaio randomizado e cego, o tipo de estudo que faltou desde o começo.

E os relatos não pararam. Em 8 de outubro de 2026, o Maskinbladet contou a história de Søren Kaae, da fazenda Follerbakken, perto de Frederikshavn, que voltou a usar o aditivo neste outono e, após seis dias, tinha vacas com diarreia, paralisia e queda de produção. Algumas precisaram ser ordenhadas na baia de enfermaria porque não conseguiam andar até o robô. Ele suspendeu o produto de acordo com o veterinário. No ano passado, tinha aguentado três semanas.

A EFSA vai reavaliar o Bovaer?

Vai, e isso é inédito para o produto. Depois dos relatos dinamarqueses, a Comissão Europeia pediu à EFSA um novo parecer sobre a segurança do 3-NOP para vacas leiteiras, informou o Irish Examiner. A agência abriu uma chamada pública de dados entre 3 de fevereiro e 10 de abril de 2026 e recebeu mais de 70 contribuições. O prazo original era 30 de junho. Segundo o Agriland, a EFSA pediu mais tempo e agora fala em concluir até o fim de 2026. Uma resposta no Parlamento dinamarquês, citada pelo LandbrugsAvisen, mencionou 30 de novembro. O parecer vai orientar a Comissão sobre manter, alterar, suspender ou revogar a autorização. Até lá, o produto segue liberado em toda a União Europeia.

Bovaer: sede da EFSA, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, em Parma, que reavalia o aditivo
Sede da EFSA em Parma, na Itália. O novo parecer sobre o Bovaer é esperado para o fim de 2026. Foto: Carlo Dani / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O vídeo da vaca que não levanta: o que é real?

Entre os conteúdos que circulam sobre o Bovaer, um reel no Facebook mostra uma vaca deitada que não consegue ficar em pé. A legenda, na versão em inglês exibida pelo Facebook, começa com uma afirmação forte: “Outra vaca adoece na Dinamarca em 2026 por causa do Bovaer”.

Vídeo publicado no Facebook. Se não carregar, assista aqui.

O texto é apresentado como o relato de um produtor dinamarquês. Segundo ele, a fazenda participava de um teste com veterinários, feito em parceria com a SEGES e com a dsm-firmenich, em que foram coletadas amostras de sangue, urina, leite e ração durante 14 dias antes de começar o Bovaer. Nos quatro primeiros dias, tudo correu bem. No sexto, o veterinário já tinha examinado seis vacas doentes: a do vídeo não levantava, e as outras cinco tinham diarreia. O produtor diz que o teste seria interrompido no dia seguinte “porque eles podem ver que está tendo um efeito negativo grande nas vacas” e porque a fazenda pediu, e conta que, em 2025, passou o tempo todo cuidando de animais doentes. O texto termina com a assinatura do grupo dinamarquês de oposição ao aditivo NOPA-NoFFF, que usa no nome a sigla do metabólito do Bovaer, um pedido de boicote à Arla e a marca “Kent Nielsen 10/6 26”.

Fomos verificar, e o resultado é misto:

  • O que é plausível: o quadro descrito, com piora a partir do quinto ou sexto dia, diarreia e animais sem conseguir levantar, coincide com dezenas de relatos documentados pela imprensa dinamarquesa, incluindo o de Søren Kaae, publicado pelo Maskinbladet em outubro de 2026. Também é verdade que SEGES e Aarhus anunciaram estudos com acompanhamento intensivo de rebanhos e coleta de amostras.
  • O que não conseguimos confirmar: não encontramos nenhum registro público da SEGES, da dsm-firmenich, da Universidade de Aarhus ou da imprensa dinamarquesa sobre um teste interrompido por efeito negativo nas condições descritas. O nome do produtor e da fazenda não aparecem; “Kent Nielsen” pode ser o autor, quem repostou ou outra pessoa. A data “10/6 26”, no padrão dinamarquês, seria 10 de junho de 2026, quando o governo ainda permitia adiar o uso para o outono, mas pode ser 6 de outubro, no padrão americano. O Facebook não exibe a página de origem nem as visualizações sem login.
  • O que é falso ou exagerado: a frase de abertura, “adoece por causa do Bovaer”, afirma como fato uma relação de causa que nenhum órgão oficial ou estudo confirmou até hoje. Um animal caído também pode ter outras causas comuns em vacas de leite, como hipocalcemia, mastite grave ou problemas de casco.

Em resumo: o vídeo é, muito provavelmente, de uma vaca doente de verdade numa fazenda de verdade, e o relato bate com o que centenas de produtores dinamarqueses descreveram. Mas o vídeo não prova a causa, e o “teste interrompido” que ele menciona não tem confirmação pública. Se a SEGES, a dsm-firmenich ou o produtor se manifestarem, atualizaremos este texto.

Bovaer: mitos e verdades

O que se diz Veredito Por quê
O Bovaer passa para o leite e dá câncer Falso O 3-NOP é degradado no rúmen. Só um metabólito (NOPA) pode aparecer, em traços, e foi avaliado como seguro pela EFSA e pela FSA. Não há estudo ligando o leite a câncer.
Causa infertilidade em quem consome Falso A redução de ovário vista em ratas ocorreu com doses muito altas, sem lesão no tecido, e não se aplica ao consumidor (checagem da AAP).
O produto é perigoso Verdade, para quem manuseia O pó concentrado tem classificação de perigo para quem o manuseia, e trabalhadores precisam de proteção. O alerta não se refere ao leite.
Reduz o metano das vacas Verdade Cerca de 30% em vacas de leite, segundo meta-análises independentes. Menos e com mais variação no gado a pasto ou em dieta rica em fibra.
Fez vacas adoecerem na Dinamarca Não comprovado Há centenas de relatos e uma hipótese ligando enxofre na dieta ao problema, mas o relatório de Aarhus não viu efeito no conjunto. A EFSA reavalia.
Bill Gates é dono do Bovaer Falso O produto é da dsm-firmenich. Gates investiu na Rumin8, concorrente australiana (Full Fact).
Foi proibido na Europa Falso Segue autorizado na UE. A Noruega teve uma pausa voluntária da cooperativa TINE, e a Arla encerrou o teste britânico.
Leite com Bovaer não tem como ser identificado Em parte Não há rótulo obrigatório. Algumas marcas usam selos de “baixo metano”, como a Go Planet no Brasil.
Fontes: EFSA (2021), FSA, Full Fact, AAP, Universidade de Aarhus, SEGES, Euronews.

O que a opinião pública e a imprensa dizem do Bovaer

O caso do Bovaer mostra como uma política climática bem-intencionada pode perder a “licença social” mesmo com aprovação científica, expressão usada pelo sindicato de produtores da Irlanda do Norte, o UFU. A cobertura se dividiu em três campos. A imprensa econômica e agrícola tratou o tema como problema de manejo e de confiança. Os checadores, como o Euronews e o centro europeu CEDMO, separaram os fatos verificáveis do resto. E uma rede de sites e perfis antiambientalistas, alguns com grande audiência, apresentou os relatos dinamarqueses como prova de “envenenamento”, quase sempre sem dizer que a causa não foi comprovada.

O curioso é que, na Dinamarca, a polêmica acabou com os papéis trocados. Normalmente, o setor rural se queixa de que os ambientalistas ignoram a ciência. Desta vez, foram os produtores que pediram cautela com base no que viram no estábulo, enquanto o governo insistia nos estudos de laboratório. Para quem acompanha a política agrícola da União Europeia, o caso entra na lista de exigências ambientais aprovadas sem testar antes como elas funcionam em fazendas reais, como já mostramos ao falar das mudanças climáticas e a agricultura mundial e da lei europeia contra o desmatamento.

Vale lembrar uma lição que a Europa aprendeu caro: um teste de 90 dias com 30 fazendas e uma obrigação nacional para 1.640 rebanhos são coisas muito diferentes. As dietas dinamarquesas, com canola, troca de silagem e água de poço com teor variável de enxofre, nunca tinham sido testadas em escala com o aditivo. A EFSA dirá se o problema é do produto, da combinação ou de nenhum dos dois. Até lá, a pergunta honesta não é se o Bovaer é bom ou ruim, mas em que condições ele pode ser usado com segurança.

Bovaer no Brasil: bois nelore no pasto da fazenda do Instituto de Zootecnia em Colina, São Paulo
Nelore no pasto, em Colina (SP). Com cerca de 90% do rebanho brasileiro criado a pasto, o Bovaer tem espaço limitado no país. Foto: agriculturasp / Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

O Bovaer existe no Brasil?

Painel Farmfor: o Bovaer no Brasil

Registro: sim. A DSM pediu o registro ao Ministério da Agricultura em agosto de 2021, segundo a Bloomberg Línea, e o Brasil, junto com o Chile, foi o primeiro país do mundo a conceder autorização plena, em setembro de 2021, para gado de corte e de leite (Agrolink). O produto está liberado até hoje.

Pesquisa: a Unesp testou o aditivo em bovinos de corte confinados e registrou redução de até 55% no metano, sem perda de desempenho, segundo a fabricante.

Uso comercial: pequeno. Em 2021, a JBS anunciou na COP26 um teste com 20 mil animais em Rio Brilhante (MS). A dsm-firmenich falou em 43% de redução, mas, em outubro de 2023, o AgriBiz informou que a JBS não usava mais o aditivo e que os únicos clientes ativos eram a butique de carnes Carapreta e a marca de leite No Carbon, que vendem com o selo Go Planet e cobram mais caro. Em Minas Gerais, o programa Leite Baixo Metano (LEBAM), da WayCarbon, anunciou em 2024 um piloto com 500 animais e meta de 50 mil, pago com créditos de carbono. O obstáculo é o mesmo da Europa, só que maior: o produto custa caro, não aumenta a produção e quase não funciona no pasto, onde está cerca de 90% do rebanho brasileiro.

Política: não encontramos nenhum projeto de lei, nem a favor nem contra, que cite o Bovaer ou o 3-NOP. A busca foi feita em 31 de outubro de 2026 na base de dados da Câmara dos Deputados. Dois projetos sobre metano tramitam na Comissão de Meio Ambiente: o PL 3512/2025, do deputado Amom Mandel (AM), cita genericamente o “incentivo à suplementação alimentar para bovinos”, e o PL 4458/2025, de Túlio Gadêlha (Rede-PE) e Socorro Neri (AC), deixa as medidas para a agropecuária a cargo de regulamento. Nenhum dos dois obriga o uso de aditivos, e o mercado regulado de carbono criado pela Lei 15.042/2024 deixou a produção agropecuária primária de fora. Também não encontramos checagens brasileiras sobre o tema. A polêmica europeia, até aqui, quase não chegou ao debate político do país.

Saiba mais sobre pecuária, nutrição animal e as regras ambientais que chegam à fazenda acompanhando o Farmfor.