Nenhuma agricultura do mundo depende tanto de um único fenômeno climático quanto a indiana depende das monções. Entre junho e setembro, os ventos carregados de umidade do Oceano Índico despejam cerca de 70% de toda a chuva anual do país — e definem, em poucas semanas, a sorte de centenas de milhões de pessoas. Não por acaso, já se disse que o orçamento da Índia é uma aposta nas monções.
Ao mesmo tempo, a Índia se tornou peça central do abastecimento global: é o maior exportador mundial de arroz, com participação que chegou a 40% do comércio internacional do grão. Quando Nova Délhi restringe embarques, o preço do arroz sobe da África Ocidental ao Sudeste Asiático.
O retrato em números
- Gente: a agricultura ocupa mais de 40% da força de trabalho indiana — centenas de milhões de pessoas — e responde por cerca de 16% a 18% do PIB.
- Estrutura: mais de 140 milhões de estabelecimentos rurais, com tamanho médio pouco acima de 1 hectare; mais de 80% são pequenos ou marginais.
- Arroz: segundo maior produtor mundial (atrás da China), com mais de 130 milhões de toneladas, e maior exportador do planeta.
- Trigo: segundo maior produtor mundial, na faixa de 105 a 115 milhões de toneladas, quase tudo consumido internamente.
- Liderancas absolutas: maior produtor mundial de leite, leguminosas (pulses), banana e manga; segundo em cana-de-açúcar, algodão e hortaliças; maior rebanho bovino do mundo.
As estatísticas oficiais estão no Ministério da Agricultura da Índia e nas séries da FAO.
Kharif e rabi: o calendário das duas safras
O ano agrícola indiano se organiza em duas estações. A safra kharif é semeada com a chegada das monções, em junho e julho, e colhida no outono: arroz, algodão, milho, amendoim e as leguminosas de verão. A safra rabi é plantada no inverno seco, entre outubro e dezembro, sustentada por irrigação e umidade residual: trigo, mostarda, grão-de-bico. Uma monção boa enche reservatórios e lençóis freáticos e garante as duas safras; uma monção falha compromete o ano inteiro — e costuma virar decisão de política comercial em semanas.
Da fome à Revolução Verde
Até os anos 1960, a Índia convivia com escassez crônica e dependia de doações de trigo. A Revolução Verde — variedades de alto rendimento, irrigação, fertilizantes e preços mínimos garantidos, com epicentro no Punjab — transformou o país em superavitário em grãos em uma geração. O sistema criado naquela época segue de pé: o governo compra arroz e trigo a preços mínimos de apoio, estoca volumes gigantescos pela Food Corporation of India e distribui grão subsidiado a mais de 800 milhões de pessoas pelo maior programa de segurança alimentar do mundo.
O sucesso deixou herança complicada: monocultura de arroz e trigo no Noroeste, aquíferos em queda livre no Punjab e Haryana — o arroz irrigado por bombas elétricas gratuitas cobra seu preço em água —, solos fatigados e queima de palha que sufoca Délhi todo outono.
O exportador que liga e desliga o mercado mundial
A prioridade da política agrícola indiana é o preço interno, não o cliente externo. Por isso o país alterna, sem cerimônia, entre inundar o mercado mundial de arroz e fechar a torneira: proibições e taxas de exportação foram impostas e retiradas várias vezes nos últimos anos, tanto no arroz quanto no trigo e no açúcar. Cada movimento desses reprecifica o grão no mundo inteiro — em 2023, restrições indianas ao arroz não basmati levaram os preços internacionais ao maior nível em 15 anos, com efeito direto sobre países importadores da África e da Ásia.
Para o mercado global, a lição é permanente: a oferta indiana existe, é enorme, mas é condicional. Quem depende dela precisa acompanhar Nova Délhi tão de perto quanto o clima, como mostra também o artigo sobre o mercado mundial de arroz.
Os desafios estruturais
A agricultura indiana carrega tensões antigas: renda rural baixa e endividamento; minifúndios que dificultam mecanização; desperdício elevado por armazenagem e cadeia de frio insuficientes; e subsídios — fertilizante, energia, preço mínimo — que consomem orçamento e distorcem escolhas de cultivo. A tentativa de reforma dos mercados agrícolas em 2020 provocou um ano de protestos de agricultores nas portas de Délhi e acabou revogada, mostrando o peso político do campo.
Soma-se o clima: ondas de calor na fase de enchimento do trigo, monções cada vez mais erráticas e a dependência de água subterrânea tornam a Índia um dos países agrícolas mais expostos às mudanças climáticas.
Por que acompanhar
Três sinais indianos merecem lugar em qualquer painel de mercado: a previsão da monção, divulgada pelo serviço meteorológico do país entre abril e maio; o ritmo das compras públicas de trigo e arroz; e qualquer sinal de mudança nas regras de exportação. Juntos, eles decidem o humor do mercado mundial de arroz — e, com frequência crescente, também o de trigo e açúcar.
Saiba mais sobre agricultura mundial e segurança alimentar em www.farmfor.com.br.